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Das contas às coisas certas

Das contas às coisas certas

Já muito foi dito sobre o programa do Governo, desde a falta de ambição, ao decalque da proposta que o PS apresentou nas legislativas. A verdade é que tudo isso era perfeitamente expectável: o voto popular foi pela continuidade das políticas seguidas nos últimos anos e não uma apologia do reformismo.

Se o programa se esperava previsível, o que conta verdadeiramente para o futuro do país é a sua execução. E aí temos muito por onde escrutinar a ação governativa, porque alguns dos "desafios estratégicos" que o enunciado aponta não foram, pura e simplesmente, objeto de nenhuma evolução positiva nos últimos anos. Bem pelo contrário. Por exemplo, as desigualdades sociais agravaram-se substancialmente em Portugal, com cerca de um quinto da população em situação de pobreza ou exclusão social (condição agravada com a pandemia) no ano passado. Ao nível da demografia, os dados apresentados nos Censos 2021 são verdadeiramente dramáticos para o nosso futuro enquanto país. E não consta que a nossa economia esteja numa trajetória fulgurante, ultrapassado que foi o nosso PIB per capita por mais duas economias do antigo Leste europeu.

Neste quadro, seria prudente que o Governo abdicasse de um certo discurso cor-de-rosa que gosta de manter sobre a realidade e apontasse objetivos concretos, rigorosos e mensuráveis para as diferentes áreas de intervenção. Reconhecer os factos não diminui a autoridade política de quem governa, antes se torna num exercício de transparência e de maturidade democráticas, que são valores a que devemos aspirar.

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Passando a redundância dos programas, está na hora de fazer acontecer. Já não basta afirmar que se quer "alterar o modelo de desenvolvimento do país", abandonar a política de "baixos salários" e apostar na "inovação". Ou que a governação vai manter as contas certas e a trajetória de equilíbrio orçamental. O que verdadeiramente importa é fazer as coisas certas, num país onde as famílias empobrecem e as empresas agonizam com impostos e custos de contexto cada vez mais elevados. O tempo das desculpas acabou. Passemos à ação e tão rapidamente quanto possível.

Empresário e presidente da Associação Comercial do Porto

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