Opinião

Greta, os bons, os maus e os tristes

Greta, os bons, os maus e os tristes

O desafio das alterações climáticas é provavelmente o campo onde os agentes políticos mais expostos estão às diferenças entre aquilo que dizem e aquilo que fazem. Num dia, juntam-se num infeliz espetáculo de adulação em torno da jovem Greta. Na semana seguinte, Portugal cai oito posições no ranking internacional do desempenho climático.

O ambiente está a destruir a credibilidade dos políticos. E a culpa, claro, não é do ambiente. A distância entre a sensatez das teorias e o pragmatismo dos comportamentos é um tratado de apelo à abstenção. A contradição entre mensagens, além disso, só incentiva a radicalização e a procura de soluções contrárias ao sistema.

Matos Fernandes, o ministro do lítio que ameaça destruir (a exploração do lítio, não o ministro, naturalmente) parte do ecossistema do Alto Minho, do Gerês e do Barroso, entusiasma-se e escreve a Greta, elucidando-a quanto às enormes conquistas da pátria em matéria ambiental. Dias depois, na mesma cimeira de Madrid que obrigou a jovem sueca a passar por cá, essas conquistas são avaliadas e Portugal vê o seu desempenho em matéria climática ser altamente penalizado.

Podíamos a isto juntar os níveis de poluição provocados por barcos de cruzeiro que atracam no Tejo (cujo terminal tem uma procura cada vez maior).

Recuso-me a tentação simplista de resumir tudo a uma luta entre bons - Greta, Guterres e outros ambientalistas radicais -, e maus - Matos Fernandes, Galamba, o consumismo e a economia de mercado. Como em tanta coisa na vida, o equilíbrio entre ambiente e desenvolvimento não se escreve a preto e branco. Mas tenho filhos pequenos, que, em casa e na escola, são sensibilizados para estas questões e educados para virem a ser cidadãos responsáveis. Em alturas como esta confesso a minha incapacidade em explicar-lhes o porquê de se ver tanta gente crescida a fazer figuras tristes.

Empresário e presidente da Associação Comercial do Porto

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