Opinião

A greve dos motoristas ou um Estado de direito?

A greve dos motoristas ou um Estado de direito?

A paralisação do país às mãos de um evangelizador de camionistas é um dos riscos que corremos com uma lei da greve anacrónica, em que o oportunismo de um pequeno grupo se sobrepõe aos direitos individuais da maioria. Não espanta que até o PS admita mudar a legislação.

Há assuntos em que faço questão de ser muito claro. A greve é um direito legítimo, inalienável e inquestionável de quem trabalha. Os sindicatos são parte ativa da vida empresarial e, na generalidade, elemento catalisador da paz social e do crescimento económico. Partindo destes princípios, também sei que o que está em causa na greve dos motoristas de matérias perigosas é a inconcebível ameaça sobre a economia e sobre o bem-estar das pessoas por parte de uma classe liderada por um patriarca com alguns modos, palavra fácil e escassos pruridos.

Na prática, o país arrisca a paralisação, o caos e a histeria impostos por 700 motoristas sindicalizados. Na prática, o pretexto da greve deste verão de 2019 prende-se com aumentos reivindicados para implementação em 2021. Na prática, como o próprio dr. Pardal explicou às suas tropas, trata-se de aproveitar o momento político - eleições daqui a dois meses -, para amealhar o maior dividendo possível. Na prática, a ocasião faz o dirigente sindical profissional, que aliás se prepara para causar idênticos tumultos na Câmara de Lisboa. Ou para se fazer eleger deputado por um qualquer partido.

Vale ao país, aos seus habitantes, aos turistas que o visitam e às empresas que aqui laboram haver no Governo quem se identifique ainda com o conceito de autoridade de Estado. Não funcionando os mecanismos de mediação, o recurso às forças de segurança e ao exército para assegurar o cumprimento de uma putativa requisição civil não é mais do que demonstrar, em situação limite, algo que é óbvio e elementar: Portugal é um Estado de direito e um país civilizado. Às vezes não parece, mas é. Eu quero continuar a acreditar que é.

* EMPRESÁRIO E PRES. ASS. COMERCIAL DO PORTO