Opinião

A hora da regionalização

A hora da regionalização

Os números continuam a ser chocantes. Segundo pudemos ler no JN de ontem e de acordo com os dados do Eurostat, se fosse analisado como um país, o Norte seria o quarto mais pobre da Europa.

Ou seja, a região mais exportadora de Portugal, a que mais contribui para o crescimento económico nacional, apenas ultrapassa a Bulgária, a Croácia e a Roménia. Há uma palavra para resumir o atraso económico e social do Norte. Essa palavra é vergonha.

Portugal é um país pobre, com um Estado centralista e um modelo de Governo medieval. Um modelo onde o mérito, o esforço e o trabalho não são premiados. Isso ajuda a perceber o nível de carência da região Norte. Contribuímos, em 2017, com quase metade da redução do desemprego nacional e em mais de 50 por cento para a recuperação da economia. Somos desfavorecidos e frágeis. Sucede que, não sendo miseráveis, somos tratados como miseráveis. Por outro lado, a estatística mostra que as únicas regiões portuguesas que têm vindo a convergir com a média europeia são exatamente as únicas verdadeiras regiões que temos: a Madeira e os Açores.

Mais de 20 anos após o referendo à regionalização, é altura de avançar e tomar decisões. A existência de regiões administrativas é um ditame constitucional por cumprir (desde 1976). Para que não haja desculpas e uma vez que estamos em ano eleitoral, os partidos estão obrigados a clarificar as respetivas posições e a levar a votos, com ou sem referendo, um modelo de regionalização. Aliás, fica bastante mal ao primeiro-ministro vir invocar, como fez em entrevista recente, uma hipotética e até duvidosa oposição do presidente da República à criação de regiões para se abster ele próprio de assumir as suas responsabilidades.

Nas últimas quatro décadas, dezenas de personalidades do Norte bateram-se pela regionalização. A minha voz é mais uma que, humildemente, se junta ao consenso que nesta região o tema vem gerando ao longo dos anos. Até Rui Rio, que era contra, mudou de posição (depois de ser autarca). Lisboa pode não querer a regionalização - o que se percebe: está sistematicamente acima do PIB per capita médio da Europa -, os funcionários do Estado podem temer a regionalização (naturalmente haverá maior exigência e passarão a trabalhar mais), as grandes corporações e elites estão contra a regionalização (é mais fácil e mais barato influenciar um país inteiro a partir de uma única capital). Tudo boas razões para o processo avançar de facto. Mas, convenhamos, a regionalização não se fará contra ninguém, contra nenhuma geografia. A regionalização far-se-á enquanto base e princípio elementar de um país mais justo, mais equilibrado e por isso mais rico. Tão claro e tão simples quanto isto.

*Empresário e presidente da Associação Comercial do Porto

Imobusiness