Opinião

CP para quê?

Ainda a maioria dos leitores não era nascida já havia um comboio a ligar o Porto a Lisboa. Chamava-se "foguete" e tinha características muito avançadas para a época. Tais como ar condicionado (que ainda existe mas hoje em dia está muitas das vezes avariado) e serviços de restaurante e de bar a bordo (atualmente, entre greves e guerras comerciais, o mais normal é não estarem disponíveis). Em 1954, o "foguete" ligava as duas principais cidades portuguesas em pouco mais de quatro horas, mas, nos anos 80, a viagem já se fazia em três. Quase o mesmo que demora hoje. O preço dos bilhetes teve um crescimento muito mais rápido, duplicando nos últimos vinte anos.

O quadro, caricato e vergonhoso, é o da principal via ferroviária portuguesa. Tudo o resto, o que subsiste, é manifestamente pior. Ao ponto de ser necessário cortar por três meses a circulação na linha do Douro para modernizar uns míseros 16 quilómetros (que o ministro do Planeamento transformou, por lapso, em 58...). Podemos pensar na eficácia da ferrovia na Alemanha, em Inglaterra ou na Suíça para percebermos que bons comboios são normalmente sinónimo de países ricos e produtivos. Ou refletir por uns momentos na dimensão da rede de alta velocidade francesa ou espanhola para as associarmos a economias desenvolvidas, mobilidade social, coesão territorial e sustentabilidade ambiental. Várias coisas que gostaríamos de ter e não temos. Querer e não poder sempre foi, aliás, um dos nossos maiores dramas. A aparência de rico nunca bateu certo com finanças deficitárias.

A ferrovia é geralmente uma base para o desenvolvimento. Por cá, em vez disso, é uma via para a depressão. Este é o país europeu em que o comboio tem a menor cota no mercado da mobilidade (vale apenas 4 por cento das viagens). O Governo, perante o caos, assegura que não existe colapso. Há uma pequena distância entre a incompetência e a incapacidade. Em qualquer dos casos, têm o carimbo de Pedro Marques, o ministro que ainda não executou, longe disso, o Portugal 2020 e, cheio de entusiasmo, já planeia o Portugal 2030. O ministro que, ao contrário da maioria dos colegas de Governo, nem na propaganda é especialmente hábil.

Há, contudo, uma boa notícia para os comboios portugueses e para os seus utilizadores. A partir de 2019, por via de uma imposição comunitária cuja implementação tem vindo a ser sucessivamente adiada, o mercado do transporte ferroviário de passageiros, bem como o de mercadoria, é finalmente liberalizado e fica aberto à sã concorrência. Nem tudo são desgraças.

EMPRESÁRIO E PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DO PORTO