Opinião

O país suspenso em 90 minutos mais descontos

A alucinação coletiva em torno do futebol mantém um país inteiro hipnotizado há quase dois meses. Primeiro foi o Sporting, agora é a seleção e o Mundial, sempre com muito Sporting pelo meio. Só. Não há espaço nem lugar para outros temas ou preocupações. É excessivo e é preocupante. Não podíamos apenas gostar de futebol?

O aumento dos combustíveis? Não, agora vai dar um direto com o autocarro de Portugal. A greve dos professores e os milhares de alunos sem avaliação? Hum,...a Fã Zone de Alfornelos é capaz de ser mais interessante. A mudança do Infarmed para o Porto? Nem pensar, só quando acabar a 374.a conferência de Imprensa do Bruno.

A caricatura peca, quando muito, pela moderação. Eu até gosto muito de futebol, vibro com os jogos do meu clube e do meu país e julgo mesmo que o desporto e o lazer deviam ocupar mais tempo na vida dos portugueses. Mas, como diz o povo, o que é demais é moléstia. Esta absorção prolongada em futebol não é saudável, desvia-nos do que é realmente importante e constitui mais um passo decisivo com vista à construção de uma sociedade de pão e circo.

Chega-se ao ridículo de termos o debate político centrado na soberana questão de saber quem irá à Rússia assistir ao próximo jogo. Será a vez de Marcelo, de Costa ou de Ferro? Atingimos o impensável de vermos, em direto e em todos os canais, o senhor presidente da República a fazer a antevisão do desafio e, hora e meia depois, outra vez em direto, a análise técnico-tática ao mesmo. Há quem veja nisto a aproximação entre cidadãos e políticos.

Pelo que me toca, muito gostaria que a seleção ganhasse os seus jogos e que contribuísse de novo, como em tantas ocasiões, para o orgulho e para o prestígio nacionais. Mas gostaria ainda mais de perceber a posição portuguesa quanto à importante Cimeira Europeia de sexta-feira e o que pensa o Governo sobre o processo de reforma da Zona Euro. Como me parece fundamental, agora que o relatório do grupo de trabalho nomeado pelo Governo aponta claramente as vantagens da mudança do Infarmed para o Porto, que o primeiro-ministro nos diga como e quando essa mudança se vai processar. Ou que, depois de tantos atrasos e anúncios falhados, os ministros da Saúde e das Finanças nos informem quando é que finalmente vão avançar as obras na ala pediátrica do Hospital de S. João. Pelo que me toca, gostava que estes dois meses de anestesia futebolística não nos deixassem exatamente no mesmo ponto e nas mesmas circunstâncias em que estávamos antes.

Eu também gosto muito de futebol. É o novo ópio do povo. Mas o país e o Mundo não param. E a vida não se resume a 90 minutos mais descontos.

* EMPRESÁRIO E PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DO PORTO