Opinião

O princípio do fim dos partidos

Com a nova lei da descentralização, Governo, PS e PSD dão mais um tiro na credibilidade da política. Está definitivamente aberta a porta ao aparecimento de novos partidos e movimentos. É o principio do fim do sistema partidário tal como o conhecemos.

Leva a ironia do destino a que o primeiro-ministro mais descentralizador de sempre, António Costa, seja objeto de censura por causa da notória falta de qualidade de uma lei cujo propósito era o de instituir e regular a descentralização. O diploma, que resulta de um acordo dito "de regime" entre PS e PSD, só é consensual pela negativa, recolhendo críticas desde o presidente da República aos autarcas, os supostos beneficiários das políticas que viria promover. Ou seja, uma lei que não serve, que não vai funcionar e que abre campo ao aprofundamento do debate sobre o papel dos partidos na nossa democracia.

Dá-se a coincidência de o tema ser simultâneo ao lançamento do novo partido, o Aliança, de Pedro Santana Lopes. Com tanto valor quanto potencial de polémica, em tudo o que faz, Santana agita e divide. Mas o ponto não é Santana. O ponto é que atingimos em Portugal um estado de saturação quanto aos partidos tradicionais, que irá ter forte repercussões no cenário político que conhecemos das últimas décadas.

Com o tradicional atraso, próprio de um país periférico, Portugal viverá nos próximos anos uma profunda reconfiguração do sistema partidário - tal como sucedeu em Itália e em França e, mais recentemente, em Espanha. E aí, então com propriedade, poderemos realmente queixarmo-nos dos populismos e dos excessos de Esquerda e de Direita. Como poderemos constatar que o novo ciclo existe porque no ciclo anterior os partidos e os políticos faziam tudo menos cuidar de resolver os verdadeiros problemas do país.

Nesse novo ciclo haverá espaço para a devida representação do eleitorado português. Acredito que os conceitos de proximidade, de mérito e de serviço público poderão vir a recuperar o sentido perdido. E julgo que haverá espaço para o aparecimento e para o sucesso de movimentos políticos independentes, interpretando não tanto a ideologia mas antes as expectativas e os interesses de grupos da população, sejam eles de natureza social, geográfica ou cultural. Convém lembrar que nas autárquicas de 2017 os independentes passaram a valer mais de 7 por cento do total de votos expressos e foram a quarta força política, tendo uma expressão superior ao CDS e ao Bloco. Tenhamos confiança.

*EMPRESÁRIO E PRES. ASS. COMERCIAL DO PORTO