Opinião

Porque a vida não é uma geringonça

Independentemente das decisões ontem tomadas na Assembleia da República, o debate quanto à morte medicamente assistida é extemporâneo. E não, ao contrário do que nos dizem, não representa um avanço civilizacional. A agenda da eutanásia é a de um projeto político esgotado.

À luz dos valores em que acredito e dos princípios que defendo, sou contra a legalização da eutanásia. Não quero porém trazer a discussão para o plano ideológico, ético ou religioso. Parafraseando uma frase da moda, à liberdade individual de cada um o que é da liberdade individual de cada um. Respeitando a liberdade das consciências, tenhamos noção que a questão é política.

É política porque foram os partidos - PS, Bloco e PAN - que convocaram a eutanásia para a iniciativa legislativa e para o debate parlamentar. Não foi a sociedade civil no seu conjunto, não foram sequer grupos ou corporações a colocar o tema no topo das preocupações nacionais.

Peço desculpa pelo incómodo que as comparações possam causar. Portugal não é um país escandinavo, com um sistema de saúde exemplar, uma Segurança Social sustentável para várias gerações, orçamentos excedentários e indicadores de felicidade invejáveis. Ora, não vivendo nós na Suécia, na Dinamarca ou na Finlândia, os senhores deputados, antes de tratar da eutanásia, poderiam eventualmente dedicar-se a pensar na melhoria do sistema educativo, a promover o crescimento económico e a fomentar a justiça social. Só para dar alguns exemplos de algo com certeza tido como desejável, premente e útil.

Até porque a nossa realidade, aquela do dia a dia das pessoas normais, nem sempre remete para o folclore das causas fraturantes da Esquerda radical. Um país delirante pode dar-se ao luxo de ter a oncologia pediátrica do S. João, eterna e miseravelmente instalada em contentores. Um país sem vergonha pode demitir-se de gerir infraestruturas anacrónicas e deixá-las em situação de risco por não investir na sua manutenção (Linha do Norte da CP). Um país sem perceção do ridículo pode até proibir a venda de certo tipo de alimentos nos mesmíssimos hospitais públicos onde se prevê que venha a ser assistidamente administrada a morte.

O problema pode até ser constitucional, moral ou ético. Antes disso, é um problema político: uma legislatura sem mais programa para executar. Para o BE, já sabemos, não há limites à criatividade parlamentar. Pelo PS, BE e PAN, continuaríamos a debater vacas que voam e outras geringonças afins. Seria cómico, não fosse o caso de se tratar da vida e de se tratar da morte.

EMPRESÁRIO E PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DO PORTO