Opinião

As aventuras de Pinho no país da corrupção

As aventuras de Pinho no país da corrupção

Daqui a umas décadas, os livros de História do ensino secundário hão-de de conter um capítulo inteiro dedicado à crise da democracia portuguesa e a uma época de forte corrupção material e moral. Essas páginas vão centrar-se no período de governação de José Sócrates. Manuel Pinho terá direito a umas linhas. Mas serão das linhas mais tristes desses anos de impunidade, prepotência e vergonha.

Que um ministro em funções tenha sido pago por um grupo empresarial privado é suficientemente mau. Que tenha recebido mais do triplo por debaixo da mesa, numa offshore, claro, do que por via do cargo que ocupava em exclusividade é só um atestado da dimensão dos interesses que estavam em causa. Que agora, como desde que saiu do governo, se passeie alegremente pelas ruas de Nova Iorque representa um insulto aos portugueses.

Os anos de Sócrates, de atirar dinheiro para cima dos problemas, das "liberalidades" pagas e recebidas por Ricardo Salgado, das listas de nomes que o BES fazia incluir na composição de governos sucessivos, do fazer de conta das autoridades judiciais, do absoluto descaramento que gerou Pinhos, Varas e Bavas, são a catástrofe moral de um país. Mas são factos. Que tanto nos fazem competir com a sofisticação de um "lava-jato", como nos colocam ao nível do terceiro mundo no que toca à fragilidade das instituições.

Não é de crise ideológica que se trata, quando muito é de ideologia do crime. A eternidade que a Justiça leva para fazer avançar investigações, acusações e julgamentos chega a ser chocante. E, perante tudo isto, é muito natural que surja a tentação populista de que fala o Presidente Marcelo. A verdade é que custa não pensar em quantos hospitais, escolas, linhas de comboio e até prisões não se fariam em troca das tais liberalidades, das rendas excessivas e dos milhões que iam subitamente parar a paraísos fiscais.

Tudo o que daqui se retira em termos de consciência nacional vai dar mau resultado. A comunicação pelo exemplo é fatal. Ou estamos a formar jovens sem ética e sem princípios, ou, dado o peso do ar que se respira, estamos a incentivá-los a comprar um bilhete só de ida com destino à emigração.

Pinho diz que só responde depois de ser ouvido pelo Ministério Público e pela PJ. Por um lado, julgo que é preferível. Tenho a ligeira impressão que as explicações de Pinho conseguirão ser ainda mais escabrosas do que os factos em si. Daqui a umas décadas, os livros de História do secundário não vão ser bonitos de ler. Nem que fossem de ficção.

EMPRESÁRIO E PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DO PORTO

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