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Opinião

Coisas sérias e brincadeiras

Coisas sérias e brincadeiras

Este é o momento em que o Governo das esquerdas atinge os mínimos do "chavismo". Em que a brincadeira ganha o estatuto de coisa séria e as coisas sérias se confundem com a ficção.

Brincadeira: o Bloco de Esquerda, partido do poder, quer eliminar o cartão do cidadão, dado o seu nome favorecer a discriminação do género. Mude-se já para cartão de cidadania, propõe a resolução entregue na Assembleia da República. O entusiasmo andrógino do Bloco não é só atual e relevante. Vai ao encontro das prioridades dos portugueses. De todos os géneros e feitios.

Coisa séria: no mês em que os funcionários públicos voltam a ser aumentados (por via da redução do corte salarial), a Comissão Europeia alerta (de novo) para os riscos do aumento do salário mínimo. Bruxelas entende que a medida não apenas aumentará a despesa, como será insustentável para a economia e agravará o desemprego. De passagem, a Comissão defende cortes de 600 Meuro nas reformas e critica a reversão das concessões dos transportes públicos e da privatização da TAP. Coisas menores.

Brincadeira: depois de anos de esforço português para descolar de práticas políticas e orçamentais muito discutíveis, António Costa faz uma vista oficial a Atenas e assina, de braço dado com o primeiro-ministro Tsipras, uma "declaração antiausteridade". Para dar o mote e o exemplo, Costa dispensou ligações comerciais regulares e voou para a Grécia num Falcon da Força Aérea. Consta que, perante a iminente ameaça de uma coligação de geringonças, ninguém em Berlin, Frankfurt e Washington dormiu nessa noite.

Coisa séria: o Conselho Superior da Magistratura fez um primeiro balanço da reforma do mapa judicial implementado pelo Governo anterior. E, revela a TSF, a avaliação é muito positiva, com redução das pendências e da duração das ações. A Senhora Ministra da Justiça já o havia prometido e prepara-se para o anunciar: vai reverter o mapa judiciário, reabrindo tribunais em localidades onde eles foram encerrados. O país encontrará de certeza dinheiro para estragar uma reforma que, dizem os entendidos, até estava a correr bem.

Brincadeira: as bofetadas do ex-ministro da Cultura e as dúvidas sobre a carreira diplomática do atual, que o JN revelou. Os avanços e os recuos permanentes do ministro da Educação, a par da total partidarização dos organismos ligados à juventude e ao desporto.

Coisa séria que passa por brincadeira: a Câmara Municipal da Amadora, democraticamente liderada pelo PS, decidiu atribuir a uma praça da cidade o nome de Hugo Chávez - Presidente da Venezuela (juro que é assim que está na placa toponímica). E este é o ponto em que, desgraçadamente para todos nós, a realidade consegue competir com a ficção.