Opinião

O 6 de outubro e o homem que só sabia ser sério

O 6 de outubro e o homem que só sabia ser sério

É sempre ingrato ser crítico para quem já conseguiu atrair sobre si a quase unanimidade das opiniões negativas. Mas o melhor que se consegue dizer sobre o desempenho de Rui Rio é que se arrisca a transformar a campanha eleitoral na volta de consagração de António Costa.

Quando o líder da oposição vai para férias e desaparece quinze dias do espaço mediático, isso quererá dizer que não há eleições no horizonte. Exceto, claro, se esse líder se chamar Rui Rio e achar que a política ainda está no tempo em que só havia um telejornal por dia (e a preto e branco). Entregar a vitória ao adversário, por falta de comparência e escassez de argumentos, parece ser a estratégia do PSD. Donde se confirma a tese de que um bom governante não é necessariamente o melhor candidato.

Rui Rio é uma pessoa de uma honestidade pessoal irrepreensível. Essa é, aliás, a única mensagem sólida que quer ele quer o PSD conseguem fazer passar. Sucede que Rio não é candidato a diretor da Judiciária ou a procurador da República. Para se ser primeiro-ministro, ser honesto é condição indispensável, mas é curto.

Para além da seriedade, não se conhece ao PSD um programa, uma novidade ou um protagonista. Há apenas Rio. Rio de braço dado com a sua seriedade. Como princípio, é louvável. Como política, não chega. Não entusiasma.

A teimosia levada para lá do limite e a desconfiança inata só agravam um quadro geral de muitas dificuldades. Ler e ouvir de tanto dirigente do PSD - veja-se o caso da Concelhia do Porto -, o que de lúcido e sensato se tem lido e ouvido é apenas sinal de antecipação de um terremoto de magnitude imprevisível.

Tenho para mim que apenas duas questões centrais se colocam a 6 de outubro. O PS tem maioria absoluta? A esquerda consegue uma maioria de dois terços no Parlamento? Não vejo o PSD preocupado em evitar que qualquer destes cenários se torne realidade. E compreenderão que esteja aterrado com a segunda possibilidade e com o que ela representa em matéria de Constituição e de risco para o futuro das liberdades cívicas em Portugal.

*Empresário e Pres. Ass. Comercial do Porto