Opinião

O Aleixo acabou, a droga não

O Aleixo acabou, a droga não

O fim do Bairro do Aleixo é uma boa notícia. Já a dispersão do tráfico e do consumo de estupefacientes por toda a envolvente é um problema grave e levanta questões de segurança preocupantes. Afinal, quem é que manda na polícia?

A área que vai dos jardins de Serralves até ao Fluvial, entre hotéis de cinco estrelas e escolas internacionais, transformou-se num supermercado de droga a céu aberto, com epicentro no Bairro Pinheiro Torres, num cenário de degradação social absoluta. O fenómeno não é novo - estava escondido nas ruas interiores do Aleixo -, nem diferente do que há anos sucedia noutras paragens. Acresce que a uma boa medida da Câmara - o realojamento dos moradores do bairro, permitindo a sua demolição, a revitalização e o adequado tratamento urbanístico daquela chaga -, não cabem ao município competências correspondentes em matéria de policiamento e de segurança urbana. A Câmara pode acabar com o Aleixo mas não tem autoridade para acabar com o tráfico de droga. Sendo que não existe uma entidade regional que possa ser responsabilizada.

Aqui entram os vícios do nosso modelo de governo. Um Estado centralista gere as polícias (como outros instrumentos de soberania) à distância, totalmente alheado de todas e cada uma das realidades locais. Ao diretor da PSP ou ao ministro da Administração Interna tudo o que não constitua um problema de segurança ou de ordem pública em Lisboa e arredores não é prioridade. Não são os filhos dos governantes nem dos deputados que têm que passar pelo Pinheiro Torres a caminho da escola. Que fica demasiado longe de Lisboa para sequer colocarem a questão dos meios ou da falta deles.

Um Estado regionalizado associa políticas de segurança a responsáveis políticos, do mesmo modo que pode assumir compromissos e procurar resultados. Um governo regional, até porque vai a votos, não se demite das suas obrigações. A regionalização não se fará apenas por causa da PSP e da segurança dos cidadãos. Mas, por si só, seria um bom motivo para que se fizesse. Também para que no Porto não se pudessem ver episódios do "Narcos" sem precisar de assinar a Netflix.

*Empresário e Presidente da Associação Comercial do Porto