Opinião

Porque está o país a cair aos bocados?

Porque está o país a cair aos bocados?

A questão tem várias respostas, mais diretas ou mais sofisticadas. Mas, no fundo, tudo se resume a um único ponto: porque não há dinheiro. Não somos ricos. Às vezes, tentamos viver como se fôssemos. Dá sempre mau resultado. E andamos há muitos anos a fazer as escolhas erradas.

A ponte de Entre-os-Rios caiu em 2001, por incúria do seu dono, o Estado português. Dezassete anos depois, a Ponte 25 de Abril verificava a mesma aflitiva falta de manutenção e só pelo facto de assegurar uma ligação à capital o Ministério das Finanças desbloqueou a verba para reparar os seus pilares. Menos sorte tem tido o Hospital de S. João, com o serviço de pediatria a funcionar em contentores há mais de uma década. Ou a CP, cuja falta de peças para reparar os seus comboios obrigou a suprimir viagens na Linha do Norte e nas de Cascais e de Sintra. Já a TAP até criou uma ponte aérea. Mas ela é assegurada por aviões que em cada dez viagens se atrasam nove, pondo em causa as ligações a outros voos. Só o funcionamento do aeroporto da Portela consegue parecer mais terceiro-mundista. Isto porque o país parece ainda não ter decidido se e onde construir um novo aeroporto. Podíamos falar de estradas, de escolas, de tribunais, dos carros que faltam à PSP e das munições que faltam ao Exército (e dos homens e dos metros de arame farpado que faltavam para tomar conta delas). O caos está instalado.

Todos os dias há novas histórias da degradação do país. Não há manutenção, não há prevenção. Estamos em mau estado. Mas, em vez de investir os parcos recursos públicos naquilo que é importante e prioritário, as escolhas dos líderes políticos recaem por norma na opção mais questionável. Entre pôr o país a funcionar e as pressões corporativas, ganham sempre os sindicatos de votos, as 35 horas semanais, as reversões, as reposições ou o reforço de direitos (já) adquiridos. Ganham sempre o penacho e o desperdício. O curto prazo não gera retorno futuro.

A escolha pelos investimentos que se transformam em votos, em detrimento dos que são estruturais, reprodutivos e duradouros não é sequer uma questão ideológica, é cultural. Claro que, de tempos a tempos, vamos à falência e somos intervencionados por troikas e FMI. São longos anos durante os quais não se prega um único prego nem se pinta uma parede. Quando a crise passa, voltamos ao mesmo. Gastamos milhões. E continuamos a ter um país a cair aos bocados.

*EMPRESÁRIO E PRES. ASS. COMERCIAL DO PORTO

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