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Sócrates, Pinho e os outros

Sócrates, Pinho e os outros

Volto ao tema que tratei no meu último artigo: os casos Sócrates e Pinho. As últimas semanas têm sido ricas em revelações, comentários, argumentações e, desculpem-me o termo bem tripeiro, bitaites acerca de corrupção, compadrio, esquemas, amiguismos e outras designações. A língua portuguesa é rica, mas também reflete o quanto queremos ser objetivos, ou não, acerca de um tema que, no final, é tão a preto e branco. Corrupção (seja ela moral, material ou ambas): existe ou não existe.

Parece que, nos últimos dias, todos decidimos olhar para o tema com objetividade e determinar que nos casos em concreto tudo aponta para que tenha existido corrupção. O estranho é que muitos dos que só agora chegaram a esta conclusão deveriam ter sido os primeiros a perceber. E muitos deles, pelas posições que ocupavam, poderiam ter tido atuações mais eficazes e até transformadoras. Eram pessoas muito próximas politicamente, profissionalmente, socialmente e até pessoalmente. Sócrates e Pinho não surgiram do nada. Foram homens que ao longo de décadas tiveram um percurso ao longo do qual criaram e mantiveram relações. Certamente, ao longo desse percurso, muitos daqueles que hoje estão admirados e estranham o que alegadamente terá acontecido, eram aqueles que rasgavam as vestes e insultavam todos aqueles que questionavam o período "Socrático" e as suas desventuras. Haverá razões para isso? Há, certamente, chamam a isso "lealdade partidária".

Sem querer ser o dono da verdade, há uma verdadeira razão para que os ministros, parlamentares e dirigentes partidários de então em nada tenham reparado: o relativismo. Esse mal que nos cega e nos leva a criticar e a agir só quando são os outros ou, no limite, quando as evidências passam de fantasmas a elefantes no meio da sala e na rarefação de opiniões poderemos meter a colherada.

Normalmente os países que apontamos como referências são aqueles que são capazes de construir regimes livres em que tudo se discute no espaço público, tudo se decide nos locais próprios e posteriormente se cumpre o estipulado. Sem relativismos. Cada titular de cargo público assume as suas responsabilidades e as consequências políticas dos seus atos - nada disso acontece em Portugal onde a culpa morre solteira. É evidente que, nesses países civilizados, há uma ética privada e pública que sustenta esta forma de ser, que considera natural este prestar de contas a todo o tempo.

Mais do que novas leis, precisamos de códigos de conduta. Claros. E precisamos de uma cidadania forte, informada, participada. Uma cidadania que não ceda a fulanizações e a desvios convenientes.

Mais do que novas leis, precisamos de códigos de conduta. Claros. E precisamos de uma cidadania forte, informada, participada. Uma cidadania que não ceda a fulanizações e a desvios convenientes.

* EMPRESÁRIO E PRES. ASS. COMERCIAL DO PORTO

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