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Opinião

Não ao "normal" de uma cidade a ferro e fogo

Não ao "normal" de uma cidade a ferro e fogo

Inúmeras reportagens identificaram já a grave situação social e de saúde pública, quando não criminal, que conheceu contornos novos nos últimos anos. Claramente agravados pela pandemia nos últimos meses. Não podemos aceitar este "normal".

Sabíamos que a dinâmica do mercado das drogas jamais seria eliminada com a implosão das torres amarelo-torrado do Bairro do Aleixo. Não deixamos de comprar pão só porque a padaria da rua fechou. A "era pós-Aleixo" revelou uma realidade mais dura, porque mais dispersa e reconfigurada, de um fenómeno que passou a baralhar (ainda mais) tudo e todos, perante a ausência de enquadramento social. E há sujeitos ativos e passivos desta realidade: os que já estavam perdidos na corrida por um vício arrasador e passaram a experimentar um desnorte maior, desde o circuito da droga ao realojamento. E os moradores de zonas até então habituados a conviver com uma geografia de compromisso urbano. O drama social ganhou uma visibilidade nunca antes assumida.

Já era grave o suficiente. A era "pós-pandemia" não trouxe tréguas. O tráfico complicou-se com a alteração dos circuitos e a oferta não chega para a procura. Os trocos que se ganhavam a arrumar carros desapareceram e os biscates tornaram-se inexistentes. Figuras desnorteadas deambulam pela cidade e constituem o rosto visível de um problema social que suplica por resposta urgente. Consome-se a céu aberto, trafica-se a céu aberto. Nas zonas verdes surgem seringas e materiais sujos afins, inviabilizando a fruição do espaço público. O aumento da criminalidade é notório, ameaçando uma normalidade já de si anormal.

Situações extremas requerem medidas extremas. Mas tudo indica que aqui não chegaram. Há anos no terreno, trabalham apenas as associações de voluntários e apoio social. O seu trabalho e o apoio de obras da Igreja católica criam alguma rede de amparo neste desnorte. Mas não vão seguramente resolver a precariedade, a degradação, a insalubridade agravadas pela ausência de intervenção comunitária e social estruturada indispensável. É imperativo e urgente que o Estado impeça, com medidas adequadas e eficazes, que este anormal se banalize. E se normalize.

Empresário e presidente da Associação Comercial do Porto

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