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Opinião

O bom exemplo português que não enche frigoríficos

O bom exemplo português que não enche frigoríficos

Portugal está outra vez na moda. Agora não como destino turístico, infelizmente, mas enquanto modelo de responsabilidade e de cooperação entre responsáveis políticos.

Do "New York Times" aos jornais espanhóis e franceses não há quem não se renda ao caso de sucesso que tem sido a resposta portuguesa à pandemia.

O motivo de admiração é a sã e eficaz convivência entre António Costa e Rui Rio, com o líder da Oposição a suspender a divergência para se colocar ao lado do primeiro-ministro, apoiando e aprovando no Parlamento as medidas que permitem ao Governo fazer o que deve. Não se trata de um bloco central, uma vez que o PSD não partilha o processo de decisão, apenas viabiliza. Mas é claramente um momento de "salvação" nacional.

A arte política e a simpatia pessoal de António Costa criam as condições para que assim seja. A educação e a personalidade germânicas de Rui Rio fazem o resto. O líder do PSD não apenas colabora com gosto, como percebe que a postura de estadista lhe pagará dividendos futuros. Casos de tanta harmonia não são fáceis nem habituais. Daí o aplauso e o reconhecimento externos.

Sucede que há um dia em que o PSD terá que começar a fazer perguntas e a apresentar soluções. Perguntas desagradáveis e soluções pouco pacíficas ou consensuais. Que terão custos e, sim, provocarão sacrifícios. Desde logo, será importante questionar por que motivo o Governo mantém o aumento de ordenados (com efeitos a 1 de abril) e o descongelamento de carreiras na função pública? E qual a razão válida para não se poder aplicar o lay-off aos trabalhadores do Estado que não podem exercer as suas funções, como sucede a mais de 600 mil do setor privado? Ou saber para quando o pagamento das dívidas do Estado a fornecedores, estimulando a economia?

O elogio internacional é uma coisa que nos alegra muito e que nos enche de orgulho patriótico. Infelizmente o elogio não serve para pagar salários, compromissos com a Banca ou contas da luz. Ou, de forma mais prosaica, o reconhecimento ainda não enche frigoríficos nem põe comida na mesa. E é a este ponto que estamos a chegar.

Empresário e Presidente da Associação Comercial do Porto

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