Opinião

O centralismo é um problema de saúde

O centralismo é um problema de saúde

Temos no Porto os dois melhores hospitais gerais do país, duas extraordinárias faculdades de Medicina e muitos dos mais reputados investigadores em diversos campos da saúde.

Mas, desde a contratação de um auxiliar à construção de uma ala pediátrica, tudo precisa de despachos e de assinaturas de pessoas que estão em Lisboa. O problema da saúde não é a Lei de Bases. O problema é o modelo. Como em tantos outros setores, o ponto crítico é o centralismo.

Muitos dos melhores médicos e enfermeiros formados no Porto vão trabalhar para Inglaterra, também destino de emigração de centenas de dentistas. Fazem-no por verem o seu trabalho devidamente reconhecido e adequadamente remunerado. Normalmente não voltam. A saúde é a área onde mais talento formamos e menos valor conseguimos fixar.

Os partidos políticos estão a preparar uma nova Lei de Bases da Saúde. Impressiona que o centro do debate não seja a falta de meios, sobretudo humanos, ou a qualidade do serviço aos doentes. Os partidos têm tendência para discutir a estratosfera e passar ao lado do essencial. Ora, na saúde, o essencial passa por mudar o paradigma centralista e por regionalizar a gestão. A lei deve servir o modelo e, em si mesma, é acessória.

Não podemos ter hospitais como o S. João e o Santo António, que descobrem tratamentos inovadores e realizam cirurgias únicas no Mundo, obrigados a esperar meses pela assinatura de um funcionário de uma direção-geral para conseguirem contratar um médico. Nem devíamos ter encomendas de medicamentos cativadas pelo Ministério das Finanças. Não podemos ter uma Administração Regional de Saúde (a do Norte como as outras) diminuída ao ponto de ser uma mera entidade validadora de faturas.

A solução dos problemas do Serviço Nacional de Saúde, como aliás a solução de muitos problemas do país, encontra-se num modelo de governo regionalizado e descentralizado, aproximando ao terreno quem de facto decide. A defesa da regionalização pode parecer um discurso repetitivo. Mas prefiro ser repetitivo do que conformar-me com a realidade de um país anestesiado.

*EMPRESÁRIO E PRES. ASS. COMERCIAL DO PORTO