Opinião

O pecado original

Salvo qualquer golpe de teatro de última instância, estará hoje consumada no Parlamento uma crise política que poucos levavam a sério e ninguém de bom senso desejaria. Apesar da má proposta de Orçamento do Estado, que ignorava as empresas e não fazia o suficiente pela retoma económica, a ida do país a eleições acontece na pior altura possível e precipita uma instabilidade que em nada vai contribuir para a recuperação pós-pandemia.

Mas este incidente político tem um pecado original: a dependência do Governo face a forças políticas populistas. Nos últimos seis anos, António Costa negou qualquer ponte de diálogo com o centro-direita, optando por negociar orçamentos e acordos pontuais com partidos de esquerda extremistas, cuja visão programática se aproxima perigosamente de um poder totalitário do Estado. O resultado deste processo foi que o primeiro-ministro ficou refém das reivindicações políticas do PCP e Bloco de Esquerda, sempre assentes em mais despesa pública, mais dívida e mais carga fiscal para os portugueses.

O desastre era, por isso, mais ou menos anunciado. Quando chegasse o momento das dificuldades - algumas já existentes e outras apenas percebidas - e as "exigências" e "avanços" não fossem suficientes para satisfazer a sua base eleitoral, os partidos de suporte tiravam o tapete ao PS e ensaiavam desculpas: "nós bem tentamos, mas o Governo é que não deixou".

A face mais negra desta realidade é que, seis anos depois, não estamos melhor do que estávamos. Pelo contrário, estamos pior, mais dependentes que nunca dos fundos europeus e com um Estado viciado em despesa e impostos. A dívida pública aumentou mais de 60 mil milhões de euros neste período - quase o valor do último resgate financeiro - e temos faturas pesadíssimas para pagar, como a TAP e a CP, que não vão resolver problema algum e só vão castigar ainda mais o bolso dos contribuintes. Tudo isto, num país com uma economia cada vez frágil, praticamente estagnada há 20 anos e que já foi ultrapassada por quase todos os parceiros europeus.

Se a crise for real, não podemos ser meigos no apuramento das responsabilidades. E, desta vez, não podemos falhar nas reformas que o país precisa.

Empresário e presidente da Associação Comercial do Porto

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