Opinião

Pandemónio é que não

Pandemónio é que não

De repente, quem estivesse mais suscetível às notícias dos últimos dias ficaria com a sensação de que a anunciada quinta vaga da pandemia entraria por aí em força.

O clamor à volta das task forces, dos centros de vacinação e das "medidas" de contenção foi tão evidente, que se reinstalou um alarme social difícil de compreender, num país que tem uma das maiores taxas de vacinação do Mundo. De permeio, regressaram os "especialistas" que dizem tudo e o seu contrário, enquanto o Governo interino sustentou a narrativa e manteve "todos os cenários" em cima da mesa.

Tudo isto começa a parecer altamente irrazoável. É verdade que o número de casos diários está a aumentar e vai aumentar substancialmente nas próximas semanas. Mas, felizmente e graças ao sucesso do plano de vacinação, o nível de perigosidade da doença baixou significativamente - há uma semana, um estudo apontava para 2300 mortes evitadas graças à vacina - e os casos de infeção respiratória suscitam menos internamentos em cuidados intensivos. O bom senso recomendaria, portanto, que se apelasse aos cuidados individuais, à proteção dos mais vulneráveis e a uma certa normalização do fenómeno, transmitindo confiança à população e aos agentes económicos. Tudo menos o recrudescimento a que temos vindo a assistir, com o regresso de um discurso cheio de excesso de zelo e de incertezas quanto ao futuro.

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Bem sei que este estado de torpor generalizado interessa a quem faz do silêncio estratégia política. No entanto, há um país que trabalha e que produz. Que não vive do Estado e precisa de responder às encomendas e aos clientes. E que reclama previsibilidade nas medidas adotadas, sob pena de não ter capacidade de pagar salários e manter a viabilidade dos seus negócios. Esse país olha para tudo isto com total desconfiança, não compreendendo o ziguezague das medidas, os calculismos políticos e a quase-histeria como tudo é tratado. De permeio, assiste-se com total perplexidade à discussão sobre leis laborais, que parecem ignorar todo este contexto de fragilidade económica e sufoco fiscal sobre as empresas.

A pandemia pode servir de pretexto para muitas coisas. Mas não pode, numa altura em que o foco é a retoma económica, transformar-se num pandemónio. Se for assim, ninguém se entende.

*Empresário e pres. Ass. Comercial do Porto

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