Opinião

Pior era possível

Após dois anos de exaustão pandémica e paralisação económica global, a guerra na Ucrânia era a variável que faltava para atingirmos a "tempestade perfeita" anunciada pelos economistas. Estamos já a pagar a fatura desta enormidade, mas o pior pode estar para vir, com os valores insustentáveis a que estão a chegar as fontes de energia e o custo de matérias-primas essenciais à produção.

Perante este cenário difícil, não deixa de arrepiar a apatia generalizada que se vive em Portugal e a forma plácida como está a ser gerida a crise macroeconómica. Não eram necessários grandes dotes premonitórios para prever, por exemplo, a escalada dos preços dos combustíveis - em fevereiro, antes da eclosão do conflito, as cotações já iam no oitavo aumento semanal consecutivo. Ao invés de atacar a origem do problema - a carga fiscal, que pesa mais de 50% por litro de combustível comercializado - o Governo interino vai apresentando paliativos, como vouchers e descontos para as transportadoras, tal como foi anunciado há dois dias pelo ministro da Economia. Na mesma linha, torna-se agora evidente a irracionalidade de encerrar a única central termoelétrica a carvão existente, num país com as nossas carências energéticas. Sermos o primus inter pares da transição climática não parece grande consolo para os portugueses, quando o preço a pagar é ter a eletricidade mais cara da Europa.

O resultado desta anomia está à vista: na última semana, foram conhecidos exemplos de várias empresas que suspenderam a sua laboração, não por falta de trabalho, mas porque não têm liquidez para suportar o custo da energia. Setores como a cerâmica e o têxtil estão a pagar mais 600% (!) por mês em gás natural do que pagavam há seis meses, tornando inviável manter a operação.

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As repercussões que já estamos a enfrentar mostram que é sempre possível piorar. Se o país não sair rapidamente do estado de paralisação em que se encontra e se não forem tomadas medidas robustas, não haverá PRR que nos salve. A cauda da Europa, ainda mais enfraquecida e vulnerável do ponto de vista económico, será a nossa posição e por mérito próprio.

*Empresário e pres. Ass. Comercial do Porto

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