Opinião

Pobres e financeiramente iletrados

Pobres e financeiramente iletrados

Sim, sou dos que veem muita discussão e pouco esclarecimento no debate eleitoral em curso. Já o referi no último texto aqui publicado e os últimos 15 dias só acentuaram essa perceção. Compreendendo todas as atenuantes, do tempo mediático à natureza imediatista de uma campanha, entendo, apesar de tudo, que deviam ser convocados mais temas para a agenda política, que promovessem uma reflexão acerca do país que somos e queremos ser.

Vem esta introdução a propósito de um indicador que o BCE divulgou na semana passada, e que nos coloca, uma vez mais, na cauda do pelotão europeu. Desta vez, em matéria de literacia financeira, estando os portugueses desonrosamente destacados na última posição do ranking, atrás de cipriotas e a avistar os italianos já de muito longe. Basicamente, o estudo mediu o nível de conhecimento da população sobre estratégias de investimento, inflação e juros compostos, tendo concluído que apenas 25% dos cidadãos nacionais responderam corretamente a, pelo menos, três das cinco perguntas colocadas - Chipre registou 35% e Itália teve 40% de respostas certas.

O tema pode não ser muito apelativo, mas é sintomático do desconhecimento que muitas pessoas manifestam em relação a conceitos financeiros básicos, que temos de aplicar no nosso dia a dia. Assumir que somos um povo iletrado em matérias financeiras ou económicas talvez não seja um exagero e, porventura, ajuda a compreender um certo descontrolo que muitas famílias vão exibindo em matéria de consumo e, sobretudo, de poupança - indicador em que Portugal tem vindo a perder pontos de forma consistente.

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Por outro lado, este fenómeno explica a falta de escrutínio existente na sociedade portuguesa sobre decisões que afetam seriamente a nossa condição económica, como o agravamento da despesa pública, os supostos aumentos de rendimento "engolidos" pela tributação ou o resgaste de empresas falidas por parte do Estado. Devíamos ser mais exigentes, mais combativos e mais preparados. Pelo contrário, continuamos "pobretes, mas alegretes", numa sociedade cada vez mais assimétrica e afastada dos níveis médios de desenvolvimento europeu. Talvez se justificasse uma palavra sobre o assunto, sobretudo para quem se está a propor governar o país.

Empresário e presidente da Associação Comercial do Porto

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