Opinião

Feriados

As esquerdas modernas nascidas dos delírios marxista, estalinista, leninista, trotskista, maoista, enverhoxhista e quejandos conservam a consistência ideológica da gelatina. Aburguesaram-se. Perderam-se no deslumbramento dos salões do poder que finalmente provaram e de que gostaram. Trocaram o fascínio dos jargões revolucionários, pela conveniência do "socialismo" onde cabe tudo. E defendem, consoante as circunstâncias, uma coisa e o seu contrário, com a mesma facilidade com que acreditam que dois dias depois já ninguém se lembrará de coisa nenhuma.

De Portugal à Grécia, com a Espanha pelo caminho, vai sendo assim. O radicalismo que rendeu votos a Tsipras, Iglesias e Louçã, cedeu lugar à vontade de disputar o centro, na ilusão - ou talvez não - da partilha dos despojos do Pasok, PSOE e por este caminho, do PS, a prazo.

Há dias repuseram-se feriados. Dois religiosos - Corpo de Deus e 1 de novembro (Dia de Todos os Santos) - e dois civis - 5 de outubro (Implantação da República) e 1 de dezembro (Restauração da Independência).

A vontade do PS, com a abstenção do PSD e do CDS não surpreendeu. António Costa antecipou em campanha o que faria se fosse chefe de Governo e a ideia colheu simpatia no espaço político à sua direita.

Extraordinário, isso sim, foi o rejúbilo do BE.

Um partido que votou por feriados nascidos dos crentes, mas que há anos se esforça por banir crucifixos e símbolos religiosos das escolas, padres e bispos de cerimónias públicas e se permite graçolas invocando o nome de Deus em cartazes deprimentes.

Também um partido que importou o líder do Podemos, para afirmação mediática de campanha nas últimas presidenciais. Do lado de lá da fronteira, recorde-se, o congénere do BE quer proibir o exército de participar em atos litúrgicos e tem entre os seus membros quem pretenda acabar com as procissões durante a Semana Santa.

A secretária-geral do partido em Sevilha admitiu a hipótese de se terminar com as cerimónias, se os cidadãos e as cidadãs o decidirem. A coligação - Participa Sevilha (Podemos) - apresentou uma moção de apoio à designada "procissão blasfema", realizada em maio de 2014 com o objetivo de ofender as manifestações religiosas... E o "círculo" do Podemos em Vindel, publicou no twitter :

"Exigimos o fim das procissões. São atos que atrasam a nossa sociedade e ofendem os nossos irmãos muçulmanos - @Podemos_Vindel.

Resta, claro, uma hipótese. A da súbita conversão do BE não ter que ver com fé a mais, mas com vontade de trabalho a menos.

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