Opinião

Centeno ao quadrado

O presidente do Eurogrupo, Mário Centeno, pediu a Portugal medidas adicionais para cumprimento do Pacto de Estabilidade, que o secretário de Estado das Finanças, Ricardo Mourinho Félix, recusou, dizendo que o Governo entende que "as medidas que estão no Orçamento do Estado para 2019 são suficientes para atingir esses objetivos".

Significa que o presidente do Eurogrupo Mário Centeno entende que o ministro Finanças Mário Centeno não fez o suficiente para salvaguarda das regras do Pacto de Estabilidade, enquanto o secretário de Estado Ricardo Mourinho Félix se solidariza com o ministro das Finanças e afronta o presidente do Eurogrupo, negando as medidas que este pede.

Pelo caminho, o presidente do Eurogrupo Mário Centeno recordará que quando Alexis Tsipras e o libertário comunista Yanis Varoufakis venceram as eleições na Grécia em janeiro de 2015, o então apenas líder do PS na oposição António Costa, proclamou que a vitória do Syriza era "um sinal de mudança que dava força para seguir a mesma linha". Esta linha, leia-se, era aquela que afrontava os mercados com frases fortes - "o Sol voltou à Grécia", "a Grécia não mais se curvará à vontade dos credores" -, em paralelo com a doutrina "gaste-se, peça-se mais e depois logo se verá", com que Pedro Nuno Santos ameaçava em 2011 que "ou os senhores (alemães e franceses) se põem finos ou nós não pagamos a dívida" e se o fizermos "as pernas dos banqueiros alemães até tremem".

Como é sabido, neste universo político de faz de conta, Alexis Tsipras acabou curvadinho à vontade dos credores e António Costa, que é primeiro-ministro tendo perdido eleições, faz por cá exatamente o contrário do que apregoava em campanha, a par de Pedro Nuno Santos no cargo de secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, do Governo que trouxe a Portugal a maior carga fiscal dos últimos 22 anos.

Convicções assim maleáveis, ajudam a perceber que em agosto, Mário Centeno tenha saudado em vídeo o fim do "austeritário" programa de assistência à Grécia, que trouxe "crescimento", "modernização da economia" e "novos empregos", para náusea de Yanis Varoufakis, que viu nas palavras uma "máquina de propaganda da Coreia do Norte" e de João Galamba, que achou o vídeo "lamentável", mas mesmo assim ascendeu (mistério insondável) a secretário de Estado.

Lembremo-nos agora do preço dos combustíveis, das greves de bombeiros, médicos, enfermeiros, guardas prisionais, professores e juízes, das tragédias com incêndios e derrocadas em Borba, dos furtos em Tancos, do colapso do Estado na saúde, educação e transportes e avaliem-se as sondagens. Tudo muito estranho.

Deputado europeu

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