Opinião

Telhados de vidro

Telhados de vidro

Enquanto na UE o Brexit aconteceu e a extrema-esquerda e a extrema-direita crescem sobre os escombros de partidos moderados da área socialista e social-democrata, o essencial do comentário político, justificado no politicamente correto que só a Esquerda está autorizada a definir, concentra-se no massacre diário a Donald Trump, sem perceber que alguma coisa está errada.

Na Grécia, o PASOK, partido socialista helénico, esboroa-se substituído pelo marxismo-leninismo retrógrado do Syriza que, apesar do absurdo, governa aliado à extrema-direita do Aurora Dourada, partido que recorre a resquícios da mensagem e à estética do nazismo. Na Hungria, o Jobbik - partido que defendeu um registo nacional dos cidadãos de origem judaica e venera Miklos Horty, presidente que colaborou com o regime nazi na deportação de milhares de judeus durante a Segunda Guerra Mundial - elegeu deputados ao Parlamento Europeu e representa 20,54 % do Parlamento nacional. Na Alemanha, o extremismo encarnado pelo AfD - Alternativa para a Alemanha - cresce, apesar das lições da história. O mesmo sucede na Holanda, com o Partido para a Liberdade, na Dinamarca, com o Partido do Povo Dinamarquês, na França, com a Frente Nacional, na Finlândia, com os Verdadeiros Finlandeses, ou na Áustria, com o Partido da Liberdade. Em Espanha, o PSOE eclipsa-se, substituído pelos comunistas radicais do Podemos, dirigido por conselheiros do regime de Hugo Chávez, que dele receberam financiamento. Mesmo assim, para a vetusta Europa, grave notícia continua a ser a presidência norte-americana, saber se na fotografia da tomada de posse Obama contou mais pessoas do que Trump, ou um sistema eleitoral, por acaso assente em regras justas, nunca contestadas por democratas ou republicanos e que existem para que na república, que é federal, os estados mais populosos não prevaleçam sobre os demais.

Já agora; na recontagem de votos pedida por suspeitas de fraude, que encheram semanas de páginas de jornais, Trump aumentou o resultado. E o assunto morreu. Tivesse vencido Hillary Clinton com igual resultado e sobre o tema, provavelmente, não se teria escrito uma linha.

Em vez de palpites sobre o que se passa nos EUA, seria mais útil que a Europa levasse o tempo a ponderar sobre o que se passa cá dentro. Nos EUA há o dobro de crescimento e metade do desemprego registado na UE, que para além do mais, incapaz de boas respostas, se desagrega. Com tantos telhados de vidro, semanas de lições de moral sobre o que se passa do outro lado do Atlântico já começa a ser ridículo.

* DEPUTADO EUROPEU

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