Opinião

O abraço do urso

Subverter as regras normais da boa convivência democrática tem custos. O PCP e o BE acabam de os sentir na pele. Com 8,25 % e 10,19 % dos votos, respetivamente, nas eleições legislativas em 2015, apostaram tudo no boicote ao poder de quem venceu. Só interessou negar ao PSD e ao CDS o direito legítimo de governar. Foram na conversa de António Costa, que achou normal ser primeiro-ministro sozinho, apesar de derrotado, sem retirar para si as consequências que antes exigiu a António José Seguro que, por acaso, tinha ganho as eleições europeias. No final - espécie de dois em um - o PS levou tudo. Relegou insolitamente a Direita para os bancos da Oposição e num abraço de urso bem medido assegurou ao BE a absoluta irrelevância autárquica e ao PCP a maior derrota da sua história.

Muito se tem escrito sobre o PSD e, ponderados os resultados, Pedro Passos Coelho decidiu mesmo fazer cessar o seu ciclo de liderança. Acontece que realmente derrotado foi o PCP que, exceção feita a Peniche, perdeu para o PS muitos bastiões de referência: Alandroal, Alcochete, Almada, Barrancos, Beja, Castro Verde, Constância, Moura e Barreiro. A ambição pessoal de António Costa custou muito caro. Mas quem pagou o preço todo foi o PCP. Ao BE, restou a representação teatral de circunstância, numa confrangedora algazarra pela eleição de um vereador em Lisboa, evocada por Catarina Martins nos comentários da noite televisiva. Nos tempos do "Zé faz falta", já tinha sido assim.

José Sócrates e António Costa significam governos que trouxeram a crise, a quase bancarrota, a troika e o resgate financeiro. Pedro Passos Coelho e Paulo Portas pagaram-lhes as faturas entre 2011 e 2015, libertando Portugal da vergonha da intervenção externa. Quem antes gastou sem ter voltou ao poder e governa pela porta pequena. Avaliado pelos recentes resultados, aparentemente, para muitos neste país, que esquece tão depressa, a prodigalidade merece prémio e a prudência das boas contas castigo. Parece que Pedro Passos Coelho foi culpado pelo buraco que José Sócrates legou e António Costa, que integrou o Governo como ministro de Estado e da Administração Interna, não teve nada que ver com o caso. Ajuda a compreender três resgates financeiros em democracia, sempre pela mão do PS. Porque tenho memória, obrigado Pedro, obrigado Paulo.

Por falar nisso; a dívida pública já supera o valor absolutamente recordista de 250 mil milhões de euros. Não há de ser nada. Porreiro, pá.

* Deputado europeu