Opinião

De onde nascem famas

Para identificar um momento fundador no processo de distorção de notícias, sugiro esta passagem bíblica em S. Mateus: «Cerca das três horas da tarde, Jesus clamou com voz forte: "Eli, Eli, lemá sabactháni?", isto é: "Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?" Alguns dos que ali se encontravam, ao ouvi-lo, disseram: "Está a chamar por Elias."» (Mt 27,46-47)

Com tão bíblico antecedente, quem poderá estranhar os erros e mistificações no humano jornalismo?

Entre nós, o episódio lapidar da mentira jornalística terá sido a frase atribuída a Sidónio Pais, ao ser assassinado: «Morro bem. Salvem a Pátria!» O criador foi Reinaldo Ferreira, o célebre Repórter X, que havia de confessá-lo mais tarde ao amigo e historiador Mário Domingues, justificando-a como «adorno imprescindível de tão importante acontecimento».

Não é verdade que Sidónio tenha proferido aquelas palavras na agonia, mas foi tão bem achada a invenção que ainda hoje a frase se mantém como uma auréola poética em torno do assassínio do «presidente-rei».

Outras frases não ditas ficaram gravadas no mármore da memória e de lá não saem. Cavaco Silva jamais afirmou, por estas palavras, «nunca me engano e raramente tenho dúvidas», mas ninguém tem dúvidas em persistir no engano de achar que ele disse o que não disse.

É o fruto mais irritante do chamado jornalismo interpretativo: divulga-se o que se acha que alguém quis dizer, em lugar do que efectivamente foi declarado.

O jornalista perguntou ao ministro: «O CEMGFA pediu que fossem enviadas células de informações militares para os teatros em que Portugal opera. Esse pedido foi satisfeito?» Resposta: «Essa necessidade foi identificada nos teatros de operações especialmente sensíveis do ponto de vista das informações e vai ser suprida. Dentro da recomposição da força portuguesa no Afeganistão no próximo Outono já está incluída a primeira célula de informações. Sem querer ser precipitado, pensamos que também no Líbano devemos dispor desse tipo de instrumento.» Título: «Portugal deverá ter espiões militares no Líbano.»

Tudo porque o jornalista - mais provavelmente o seu arguto chefe - achou que «célula de informações» quer dizer «espiões». E o ministro nem que se esfregue com solarina e palha-de-aço conseguirá tirar da pele a mancha de ter anunciado o envio de espiões.

Culpa do ministro, que até já tutelou a Comunicação Social. Devia saber que, perante este jornalismo, a melhor maneira de falar de coisas militares é estar calado.

(oscarmasc@netcabo.pt)

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