Opinião

Ele diz que há -mas há?

Ele diz que há -mas há?

A mulher vinha descoroçoada da farmácia. Descobriram-lhe a necessidade de uma medicação prolongada e, quando foi comprar a primeira embalagem do medicamento, viu que estava riscado o preço antigo e a respectiva comparticipação do doente, mas ainda dava para ler. Aquele remédio, até há pouco tempo, custava dez euros ao doente.

Ela nem quis acreditar quando lhe pediram 28 euros! A fracção que toca ao doente tinha subido 180 por cento - a tanto monta a meiguice de quem legisla o preço. Só para aquele medicamento, a mulher vai ter de contar com um custo fixo de 336 euros ao ano - se, entretanto, não houver nova gentileza de quem põe e dispõe dos haveres dos cidadãos e voltar a aumentar a parcela...

Sentou-se a ver o debate final na televisão e ouviu o ainda primeiro-ministro acusar o adversário de querer acabar com o Estado social - mas que ele ali estava, disposto oferecer o corpo, qual Martim Moniz, ao portão dos neoliberais que querem fechar a cidade aos mais pobres.

«Ele diz que, afinal, há Estado social», comentou a mulher, com o remédio na mão. «Querem lá ver que com o outro ainda vai ser mais caro? Mas há mesmo Estado social?»

E dizia mais o ainda primeiro-ministro, de dedo em riste, que o seu adversário era contra a «tendência gratuita» da saúde e, para cúmulo, era pelo «co-pagamento», o tunante!

«Apre! Deve ser mesmo a doer se o outro ganha», pensou a mulher. «Acaba-se a "tendência gratuita" e vem o "co-pagamento" - como é que nos vamos aguentar?»

Voltou a olhar para a caixa do medicamento e para os números riscados. «Cento e oitenta por cento de aumento é tendência gratuita? É tanto tendência gratuita como ir da Amadora a Lisboa passando por Elvas... E se sou obrigada a aumentar o meu sacrifício na aquisição do remédio - isso não é co-pagamento? De que é que eles estão a falar?» Estão a falar da mesma coisa, das mesmas ideias e das mesmas intenções, mas um anuncia em voz alta e o outro acha que não convém que se saiba: são dois infiltrados do anti-social em partidos de tradições sociais-democratas ou socializantes. Como perversos penetras em território que lhes é alheio, são cavalos de Tróia - só que um é mais mula do que o outro: basta dizer o que defende para sabermos que é o que vai destruir. O outro só tem uma vontade enorme de destruir: ainda não se sabe se terá arte para isso - e já foi apanhado em algumas mentirolas que bateram na trave.

Melhor é não contar com eles. Dali nada vem de bom. Tão triste encruzilhada pede que não se vá por aí.

oscarmasc@netcabo.pt

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