Opinião

O Governo de Peniche

O meu amigo e excelente jornalista Miguel Gaspar, director-adjunto do 'Público', dizia-me na sexta-feira, que, se não fosse ouvir das boas por parte dos reguladores, anunciava o resultado das eleições logo na edição de domingo: «Ganhou a troica. Com maioria de dois terços.»

Como estou a escrever este texto muito antes da contagem dos votos e não há regulador que se preocupe comigo, apodero-me sem rebuço da ideia do Miguel e parto do princípio mais do que seguro de que ontem ganharam três troicas: a troica estrangeira mandante, a troica nacional cooperante - e a troica de dirigentes nascidos todos na JSD, mesmo que episodicamente desavindos.

(Este berço político-partidário comum inscreve a JSD como mais uma força de poderes ocultos na sociedade portuguesa, a par da Maçonaria, do Opus Dei, do Banco Espírito Santo, do santo espírito do padre Vítor Melícias... E reforça a certeza de que tarde ou nunca se endireita o que torto nasce. Se não se endireita não garanto - mas jamais se esquerda...)

Saiu, pois, do conclave nacional, um fumo assim da cor de burro quando foge a anunciar que temos Governo. Quero dizer, há Governo, tenho dúvidas de que seja nosso. (A minha parte dispenso-a, pois nem rifá-la consigo.) A sede do Executivo será significativamente transferida para Peniche, terra vítima dos falsos amigos dos portugueses.

Isto porque acho difícil que os franceses nos emprestem Vichy para a função, se bem que fosse adequada. É que, tal como em 1940, a ocupação demorou apenas os meses de Maio e Junho a concretizar-se. O pretexto foi a superioridade racial: nós agora somos os calaceiros de papo para o ar, vizinhos e amigos de outros preguiçosos que plantam pepinos que dão uma diarreia de vaca louca aos alemães.

E temos - lá estou eu! - um Governo muito colaborante. Em 1940 dizia-se colaboracionista, mas isso foi antes do acordo coiso... Com uma maioria superior a dois terços, 'bye-bye' Constituição, 'au revoir' conquistas de Abril, 'auf wiedersehen' Estado social. Não vai haver resistência institucional à desfiguração completa do que demos estupidamente como certo, sempre confiantes num vestígio de orgulho e memória no PS. Mas este PS, caros amigos, antes que o galo cante três vezes, já terá passado a patacos o que resta, por duas razões: porque o PS dominante pensa (?) como os jota-direitolas dos outros dois partidos; e, porque, 'primum vivere, deinde philosophari' - e o estômago está primeiro.

Lá vamos nós para o 'maquis'. Velhos e trôpegos, mas o que é que se há-de fazer? Pétains é que nunca!

Outras Notícias

Outros Conteúdos GMG