Opinião

A censura em moção

O país não está sob a ameaça da moção de censura. O país está sob a censura em moção. Em movimento contínuo. Aliás, é mais correcto dizer: estamos todos sob censura. E que moção pode ser mais abatedora? E, por isso, estamos todos extremamente abatidos. Não é só o governo de José Sócrates.

O anúncio da marcação da moção de censura ao Governo, com um mês de antecedência, que Francisco Louçã (terá sido o Bloco?) apresentou, na passada quinta-feira, no Parlamento, tem sido objecto das mais divergentes posições políticas. E nem as contas feitas dos votos a garantir o chumbo da moção, pelas declarações partidárias já tornadas públicas, conseguiram apagar a perturbação agigantada nestes dias. Se foi esta a intenção de Louçã, o efeito foi ganho.

O gesto de Louçã, desde as interpretações de cariz mais maquiavélico que foi o de dar uma mãozinha ao Governo ao acto de destemperada vingança transvertido em juros suicidas para o próprio partido, pode ter uma leitura mais simplista: Louçã disse e ameaçou com o que outros tanto desejam fazer e andam por outras formas e estratagemas a ameaçar. Vão fazer. Só não sabem quando. E é este «quando», dito patriótico, mas que tresanda a tacticismo de luta partidária, que pode vir a ser o «salvo-conduto» para este Governo completar a legislatura.

Ora, que o Governo está sob censura é evidente. Basta estar atento às «condenações» sobre os resultados da sua acção política que todos os partidos e sindicatos lhe fazem. E, nestes últimos tempos, até àquelas que surgem entre alguns agentes, outrora, do seu grémio, sinceramente discordantes ou, então, com despeito, tentando ainda saltar do barco. Mas, o estado de censura é concomitante aos outros partidos. Os da Esquerda que não conseguem obter da Direita o voto necessário ao derrube do Governo. O CDS que desejava cumprir com o voto de Paulo Portas de «mandar embora», quanto antes, José Sócrates. Mas com a cumplicidade do PSD. Neste, o sentido de Estado de Passos Coelho, que não pretende, e bem, chegar ao governo, a qualquer preço, também começa a estar sob censura daqueles que temem por tanto esperar o poder, voltarem a perdê-lo.

Por sua vez, em Belém, o presidente, bem lembrado das culpas que lhe assacaram na recente disputa eleitoral, vai ali chamando todos os responsáveis, para obter informações do «quando» e «como» da censura.

Convenhamos que não é um estado de censura permanente. É um estado de tormenta.