Opinião

A luta dos Homens

Alimentei alguma expectativa por ver qual seria o desfecho da canção, este ano, levada pelos Homens da Luta ao Festival Eurovisão da Canção, na Arena de Dusseldorf. Não por gostar ou apostar na qualidade da canção, aliás já posta em causa pelos críticos da especialidade. Mas também não é por aí que estes festivais, anos atrás de anos (e vão 55), primam no campo da expressão musical. E, neste aspecto, a participação portuguesa, com escassas excepções, não soma grandes troféus.

A minha curiosidade assentava no facto de face ao actual contexto de uma Europa, anémica, descoroçoada, a decompor-se, interessa contribuir com alguns elementos que façam ressurgir um qualquer espírito de luta por uma Europa que se está a deixar desfalecer, quase morrer, nos ideais e valores que lhe davam prestígio e dianteira no Mundo.

Por outro lado, ingenuidade minha, tendo presente o clima de "revolução suave" e de insurreição com luta e morte que tem assolado a África e as fronteiras do "mundo Islão", mais vizinhos da Europa, cheguei a pensar que os povos dos 43 países concorrentes achassem piada à mensagem simplória destes Homens da Luta e lhe dessem alguma atenção. Engano meu. Os europeus não estão para aí virados. A Europa vale pelas liberdades e prazeres que deixa gozar, pelos consumos desenfreados de uma vida intensa sobre a hora, o momento que se desfruta, numa Europa que é, sobretudo, um grande Mercado, onde aqueles que vão ficando para trás não pesam na consciência de ninguém. Provavelmente, face à imagem de Portugal, país caloteiro entre os europeus, aquele traje próprio para lutas de rua, mas não para arenas de fascínio e espectáculo, foi visto como a representação mais adequada dos actuais "pedintes" da Europa. Numa Europa que nem nestas coisas de um concurso de canções deixa de ter filhos e enteados. Dos 43 países em luta cancionista, cinco são grandes, e como tal nem se sujeitam a votos: Inglaterra, França, Alemanha, Espanha e Itália.

É esta Europa que assiste impávida e insensível ao cemitério em que se tornou o Mediterrâneo daqueles milhares de seres humanos que, transidos de medo e cheios de fome, fogem desesperadamente da outra costa mediterrânica para o lado de cá, onde pensavam ainda haver algum refugo de compaixão e solidariedade.

A luta dos Homens pelos homens não se esfuma numa alegoria dos Homens da Luta. E isso nem por cá, aqueles que, nestes dias, se enleiam numa luta de dislates e ofensas mútuas, compreenderam que para nos tentar pôr na ordem basta uma troika de altos funcionários de quem manda no Mundo.