Opinião

O jogo da comunicação

O jogo da comunicação

No meio desta enorme turbulência que marca os nossos dias, por motivos políticos e económicos, tem particular interesse verificar o papel desempenhado pelo "jogo da comunicação". Obcecados como andamos pelas notícias da crise financeira de um país anunciado à beira da bancarrota e da crise política que veio impor um indesejável período de propaganda partidária, escapam-nos, porventura, certas subtilezas. Estamos perante um quadro pouco propício a vislumbrar a luz ao fundo do túnel que nos pode fazer sair deste sufocante beco. E se olharmos bem para o que está a acontecer, o jogo ou a "guerra" entre as partes está a travar-se na arena da comunicação.

Ora, se por um lado, uns acusam o Governo e Sócrates de, anteontem à noite, terem feito uma "brilhante" operação de propaganda na comunicação do acordo conseguido com a "troika", outros, não deixam de ficar estupefactos com as declarações de Eduardo Catroga, logo em seguida. Sócrates exaltava o "bom acordo" na sua peculiar lógica. Desdramatizava as informações assustadoras para as reacções mais primariamente sensíveis aos portugueses (corte dos 13.º e 14.º mês, despedimentos na Função Pública, privatização da CGD, etc., etc.) e afastava os temores nestes dias propalados por muitos "media", não se sabe baseados em que "fontes fidedignas". Catroga, com uma exaltação despropositada, reclamava uma vitória para o PSD. Soube-se, depois, pelo próprio porta-voz do partido, só na manhã de ontem ter conhecido o documento. Como dizia Manuel Queiroz no «i», se um fez uma acção de propaganda, o outro tentou. Ambos mereceram a insuspeitável apreciação de Alberto João Jardim: Uns sabem fazê-la. Outros têm uma comunicação "naif".

Relevem-se a actuação cautelosa de Paulo Portas e a atitude coerente daqueles partidos que não quiseram participar nesta negociação e não negam os condicionamentos que advirão de vivermos sob o desígnio de um protectorado. No fundo, o que se comprova, é que discutir este acordo, num período aceso de propaganda eleitoral, "joga" contra a situação real do país. Impõe-se, sobretudo, estar atento ao "jogo da comunicação". Dos políticos e da informação mal informada. Exige-se um esforço suplementar para discernir crise, acordo, e disputa eleitoral. "Só podemos produzir a verdade do interesse se aceitarmos questionar o interesse pela verdade". (Bourdieu) E só poderemos caminhar para sair do fundo deste poço se nos mentalizarmos que, seja qual seja o acordo, cada um de nós vai ter de "assinar" um acordo próprio, pessoal, para vencer, em curta ou longa duração, a crise.