Imagens

Últimas

Paula Ferreira

A ver passar os comboios

Voltei a subir o Douro de comboio num sábado de sol, reedição de uma viagem feita há décadas, noutras circunstâncias. O mesmo deslumbramento, um país diferente. Pior? Muito pior, se falarmos de transportes, se falarmos de comboios. Entre estas duas viagens, com um intervalo amplo, o que mudou? Tanto e sempre com prejuízo para as pessoas. Assistimos a uma destruição deliberada do transporte ferroviário, desinvestimento atrás de desinvestimento até tornarem os comboios inúteis, pela simples razão de não prestarem um serviço fiável.

Paula Ferreira

O medo não pode ter tudo

Somos humanos na exata medida em que nos relacionamos, estabelecemos relações sociais. Nunca tivemos dúvidas desta circunstância que nos diferencia dos restantes seres. Mas as coisas estão a mudar. O vírus, que nos apanhou de surpresa, mais do que a ameaça do risco de morte, parece roubar-nos a humanidade, uma longa história de partilha de afetos. Empurra-nos para a solidão, para um egoísmo securitário. Quantas vezes dou comigo, hesitante, sem saber o que fazer, sem ter a certeza se deva procurar aquela pessoa querida ou se ao fazê-lo estarei a causar um problema - a ternura a tornar-se ameaça.

Paula Ferreira

Liberdade sob ameaça

"Foi transportado num autocarro, escoltado por um carro policial com os rotativos ligados, para o hotel, ali chegado foi encaminhado para a zona do check-in, tendo-lhe sido atribuído o quarto, altura em que foi informado que não podia sair do quarto, onde teria de permanecer durante os próximos 14 dias. Foi informado que as refeições seriam fornecidas pelo hotel em três momentos definidos do dia, havendo duas alturas em que podia solicitar refeições/snacks adicionais. Acatou o que lhe foi indicado, verificando que havia um agente da PSP à porta de entrada do hotel".

Paula Ferreira

Quanto vale a vida de um homem negro?

Um homem morreu, abatido à queima-roupa com três tiros disparados por outro homem. O crime aconteceu num início de tarde de verão, num sábado, numa rua deste país de brandos costumes. Dizem testemunhas, ouvidas pelos órgãos de Comunicação Social, que o agressor antes de disparar, com a sua arma ilegal, terá dito à vítima para ir para a terra dele. As autoridades, no entanto, afirmam que as testemunhas quando inquiridas não referiram motivações racistas.

Paula Ferreira

O vírus de quem trabalha

Um vírus democrático que afeta todos por igual. Assim o mundo olhava para o novo coronavírus, no início da pandemia. Nada mais falso. Essa ideia criada, quando a maioria se confinava em casa, depressa se revelou enganosa. Como o tempo veio demonstrar, este e outros vírus afetam sobretudo os que vivem em casas sobrelotadas, sem condições básicas de higiene, os que são obrigados a sair todos os dias e usar o autocarro, o metro ou o comboio, haja condições para praticar o distanciamento social ou não, quem tem, em suma, de trabalhar fora de portas para sobreviver. São estes os mais afetados pelo vírus, que poupa quem pode deslocar-se para o trabalho em viatura própria ou simplesmente ficar em teletrabalho. Seja qual for a opção, o salário cai na conta no final do mês. Por outro lado, afeta mais as regiões cujas periferias são constituídas por aglomerados de prédios, sem mais nada, ou casas abarracadas.

Paula Ferreira

A história do banco mau não tem fim

O presidente da República ficou estupefacto com a revelação de o Novo Banco precisar de mais dinheiro do que o inicialmente previsto. Ficou Marcelo e, com certeza, muitos outros portugueses. A notícia chegou via rádio, no início da tarde de domingo. Em entrevista à Antena 1, António Ramalho anunciou com grande naturalidade: ao banco não bastaria a verba acordada no contrato de venda. Uma declaração feita no dia anterior à tomada de posse de João Leão, o novo ministro das Finanças, que substitui Mário Centeno - de saída por razões não tornadas públicas, mas que a questão do Novo Banco tornou pelo menos desconfortável a sua continuidade.