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Paula Ferreira

As escolhas do Estado

Podem os portugueses confiar no Estado como garante de segurança? Como entidade zeladora dos interesses e bem-estar dos seus cidadãos? A demissão de um diretor da CP deve fazer-nos pensar sobre o assunto: revela bem o ponto a que chegaram os nossos serviços públicos. Pontes Correia terá sido exonerado por manifestar discordância em relação à decisão da administração de prolongar a atividade do material circulante antes de seguir para a manutenção. O diretor da CP terá alertado para o risco que tal medida poderia representar na segurança dos passageiros. Foi afastado.

Paula Ferreira

Tragédia arcaica

Duas crianças e três adultos foram encontrados sem vida num casebre em Trás-os-Montes. No Portugal do século XXI, no país que oferece 110 milhões de euros para a Web Summit ficar em Lisboa durante uma década, e se apresenta no exterior com a tecnologia como bandeira. Nesta terra, afinal, as mais básicas condições de vida estão ainda por conquistar. Cinco pessoas, entre as quais duas crianças, perderam a vida porque, na falta do essencial, recorriam a um gerador para ter energia no local onde habitavam. Chamavam-lhe casa, embora não fosse uma casa.

Paula Ferreira

As questiúnculas de Rio

José Silvano é secretário-geral do PSD, o maior partido da oposição, tem alternado no poder e aspira voltar à liderança do país. Por isso, Silvano anda por Portugal, na companhia do presidente dos sociais-democratas, em sucessivas reuniões. Sem grande tempo, portanto, para exercer as tarefas de deputado. Por tal motivo, o melhor seria renunciar ao cargo na Assembleia da República, e, assim, evitaria a caricata situação de pedir aos seus colegas deputados para assinarem o ponto por ele.

Paula Ferreira

Dúvidas do juiz em horário nobre

De um juiz espera-se que aplique a justiça. De um juiz estranha-se quando lança suspeições sobre a Justiça. Carlos Alexandre, o dito superjuiz, levanta dúvidas sobre o sorteio que ditou ser o magistrado Ivo Rosa o titular do processo "Operação Marquês", deixando no ar a possibilidade de ter sido viciado. Lançou a suspeita numa espécie de entrevista ao Canal 1 da RTP. Perante as dúvidas do entrevistado, esperava-se também do entrevistador a pergunta óbvia. Não o fez. Sendo assim, ficamos sem saber se o impoluto Carlos Alexandre tinha dado conta dessas dúvidas aos órgãos competentes, ou seja, ao Conselho Superior da Magistratura (CSM). A pergunta não existiu, mas a resposta havia já sido dada, logo após a promoção da entrevista pela RTP, com o CSM a abrir um inquérito. Portanto, o juiz Carlos Alexandre, que muitos portugueses confundirão com um representante do Ministério Público, guardou as dúvidas para um programa de televisão, que revelou a origem humilde do magistrado. Numa amena cavaqueira, em que se orgulhava de nunca ter faltado ao emprego, "a não ser por morte de algum familiar", revelou ter pedido folga para o dia do sorteio. E a malandragem aproveitaria para viciar o processo.

Paula Ferreira

Quando ganha o medo

Afinal aconteceu. Um candidato de extrema-direita venceu a primeira volta das eleições no Brasil. Jair Bolsonaro, ex-capitão na reserva, apologista da violência, com um discurso contra as mulheres, os indígenas, os negros e os homossexuais, defensor da tortura e da ditadura militar, está à beira de ser o presidente. Com 46 por cento dos votos, irá disputar, daqui a três semanas, na segunda volta, o Palácio do Planalto, com Fernando Haddad, a escolha tardia do PT, feita no limite, quando o partido percebeu que Lula da Silva, preso por corrupção, não tinha condições para ser candidato.

Paula Ferreira

A decisão é minha

O centenário do nascimento de Egon Schiele, o pintor austríaco que retratou homens e mulheres nus, lésbicas e heterossexuais a fazer sexo, ficou marcado pelo renascer de um puritanismo de que não havia memória. No início deste ano, em várias cidades europeias, incluindo Londres, os cartazes a lançar as comemorações do centenário foram censurados com uma frase própria de uma campanha publicitária: "Tem 100 anos mas ainda é demasiado ousada". Não era publicidade, mas refinada censura.

Paula Ferreira

Estudar custa

Entrou com uma média de 18,9 valores e foi o único candidato ao curso de Engenharia Civil da Universidade da Madeira. Estranho, no mínimo. Como tudo, há uma explicação para o caso. Fazer uma licenciatura na ilha, a aprender a construir pontes, não era o sonho do jovem. Juan Emanuel Batista tentava uma segunda oportunidade. No ano letivo passado, frequentou o mesmo curso, mas no Instituto Superior Técnico, uma das mais prestigiadas instituições de Ensino Superior. Luso-venezuelano, empurrado para a Madeira pela crise económica e política que se vive na Venezuela, Juan Emanuel não aguentou o custo de vida de Lisboa. Como tantos outros, falta-lhe capacidade financeira para pagar a renda de um quarto na capital.

Paula Ferreira

Somos todos precários

O direito à greve está consagrado na lei laboral. Fazer greve é, cada vez mais, um ato de coragem. Como o prova, sem qualquer subterfúgio, o mail enviado pela Ryanair aos funcionários que paralisaram nos últimos dias 25 e 26 de julho. Além de perderem os prémios de produtividade relativos a esse mês, a empresa deixa claro que eventuais promoções na carreira desses trabalhadores estão postas de parte. Essas benesses não são, obviamente, para quem se atreve a fazer greve.

Paula Ferreira

Jangada de pedra

Parece irreal, no entanto aconteceu. Foi há poucos dias. Vários deputados, de diferentes partidos, e alguns autarcas preparavam-se para fazer uma viagem de comboio entre as Caldas da Rainha e Lisboa. Porém, para não ficar em terra, tiveram de viajar de automóvel até à capital. Uma cena anedótica, de filme com Vasco Santana. Aconteceu há dias, no país da moda. Os deputados regressaram de carro porque a CP suprimiu o comboio. Tinham alternativa. E os outros, os utentes da Linha do Oeste, se é que algum ainda resiste, de que alternativa dispunham? Nenhuma, provavelmente.

Paula Ferreira

A História não se repete?

A crise migratória em curso é apenas a ponta do icebergue do que se está a passar na Europa. É a face visível de algo a emergir (ou a renascer), que a maioria de nós acreditava nunca defrontar. A recusa em prestar apoio humanitário a homens, mulheres e crianças, fugidos da guerra, fugidos da fome, à procura de uma vida digna, devia fazer corar de vergonha as velhas e novas democracias europeias. Além disso, a recusa de acolhimento contradiz a necessidade de rejuvenescimento de uma Europa envelhecida, sem vontade de contribuir para o aumento da natalidade.

Paula Ferreira

A tragédia do interior

Um ano depois, o que mudou? Seria injusto responder: pouco ou nada mudou. Um ano volvido sobre a tragédia que sobressaltou o país, fez imensas vítimas mortais e destruiu milhares de hectares de floresta, muito mudou. Nunca a prevenção da época de fogos, talvez, tenha sido feita com tanto cuidado. Há muito se não via, pelo menos no discurso, a floresta a ser tão valorizada. Alterou-se a maneira de olhar o território, o interior e seus dramas silenciosos, e existe consenso - é preciso mudar práticas, tornar a palavra ato, sob pena de se repetir o impensável.

Paula Ferreira

Uma estranha paixão

Foi preciso um grupo de bárbaros agredir os jogadores do Sporting, no interior da Academia de Alcochete, para centrar a atenção na pobreza do mundo da bola em Portugal. Não bastava o discurso de ódio que os representantes dos clubes destilam no espaço público; não chegava a perceção de que o futebol, enfim, não é bem o que se passa dentro das quatro linhas. Não chegava vislumbrar o perigo que muitos jogos constituem para quem ainda acredita poder assistir, em família, a uma festa do desporto.