Opinião

A França desavinda

As palavras de Marine Le Pen na noite da derrota eleitoral da Frente Nacional, em França, poderão ser premonitórias. Os franceses optaram pela continuidade, com a vitória de Macron "tudo vai ficar na mesma". Esperemos que o futuro desminta a líder da extrema-direita. Manter a atual trajetória política será o caminho para o abismo. Os franceses não aguentariam uma vez mais ver a esperança derrotada.

Macron e a sua candidatura improvável corporizaram a rejeição dos cidadãos pelo sistema político. O que tem governado a Europa, ora mais à Esquerda, ora mais à Direita, nunca se afastando do Centro, optando por soluções e políticas que conduziram a um enorme desencanto. Macron, também ele um homem do Centro, diz-se longe dos partidos. Nos próximos cinco anos saber-se-á se isso é possível ou apenas quanto tempo demorará a render-se ao sistema que, na noite de domingo, o aplaudiu em uníssono. E se o fizer, será uma traição a boa parte dos 20,7 milhões de franceses - votaram nele acreditando estar a fazer uma rutura política.

Le Pen não foi eleita presidente da República francesa. Todavia, isso não significa uma pesada derrota. Pelo contrário. De eleição a eleição, a líder da extrema-direita vem fazendo caminho. Desta vez, quase 10 milhões de franceses viram em Marine a esperança de tornar a França o centro da Europa. Ou seja, votaram mais quatro milhões em comparação com o resultado obtido pela Frente Nacional nas eleições regionais de 2015.

É gigante, portanto, o desafio do independente Emmanuel Macron. Está ao seu alcance, na sua gestão política, suster o crescimento da extrema-direita em França. E se as palavras de Le Pen se concretizarem, e tudo ficar como ela vaticinou na refrega eleitoral, não serão 10 milhões os seus apoiantes daqui a cinco anos. Terá mais, com certeza.

No seu primeiro discurso, na esplanada do Louvre, em Paris, um local simbólico que remete para o poder da França culta e cosmopolita, Macron prometeu unir a nação dividida. O primeiro sinal será dado em breve, quando anunciar o nome do primeiro-ministro. Aí perceberemos o rumo pretendido, se há mudança ou não. Simples maquilhagem, agora, é insuficiente. E ontem, alguns franceses já saíram à rua: unir a França desavinda não se vislumbra tarefa fácil.

* EDITORA-EXECUTIVA-ADJUNTA

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