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Opinião

A anormalidade

Portugal entrou na segunda fase de desconfinamento. Os alunos do 11.oº e 12.oº anos regressaram à escola; as creches reabriram para os pais deixarem as crianças e poderem ir trabalhar; restaurantes e cafés voltaram a servir clientes, apenas com metade da capacidade, e uma segunda vaga de lojas relança a vida nas ruas das cidades. É o lento despertar da normalidade para os que vivem a vida como ela é.

Para quem estava desatento, no entanto, a normalidade chegou e instalou-se. E se alguma vez acreditámos que, depois da tragédia ainda não extinta, nasceria algo novo na política portuguesa, desenganemo-nos. O normal está aí e sem novidades de monta. Os sinais são claros. Mário Centeno, antes catalogado como Ronaldo das Finanças, foi empurrado do Governo por uma coligação formada pelo presidente da República e pelo primeiro-ministro, protagonistas de um caricato espetáculo, levado à cena na passada semana, com o aparente objetivo de iludir a realidade. É a política, pré-pandemia. Nada de novo, até agora. Apenas vivemos um interregno, graças a uma crise de saúde pública.

O primeiro-ministro António Costa já anunciou o que o secretário-geral do PS António Costa deveria apresentar: o candidato que o partido apoiará nas próximas presidenciais. Se parecia pouco provável o PS abdicar do apoio a um candidato da sua área ideológica, não há margem para dúvidas. "Não é preciso ser vidente, nem comentador, nem ler muitas sondagens para antever qual é o desejo profundo dos portugueses quanto ao exercício da função presidencial". Declaração de Costa, ontem, em entrevista à TSF, quatro dias depois de manifestado o desejo de ver Marcelo reeleito.

Se o atual presidente é o preferido dos portugueses, como afirma Costa, para quê apoiar outro? E já agora uma pergunta pueril: valerá a pena fazer campanha eleitoral? Sempre se evitavam alguns espetáculos da velha política. E a democracia, e a sua diversidade, que faremos dela?

*Editora-executiva-adjunta

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