Opinião

A guerra segue dentro de momentos

A guerra segue dentro de momentos

A partir de hoje, entre as nove e as 14 horas é possível sobreviver. Depois, volta o inferno até às nove horas do dia seguinte. Parece trecho de uma peça de teatro surrealista. Não é. É a guerra, dizemos nós. É o dia a dia da população síria, a partir de hoje. Por incrível que pareça, será melhor do que ontem. Dias terríveis: sem tréguas, apenas com bombas. Uma pausa humanitária, agora decretada pela Rússia, permite retirar os feridos e a chegada de ajuda a Ghouta - um enclave detido pelos rebeldes opositores ao regime de Bashar al-Assad Apenas uma pausa na guerra, apesar de no sábado, após longas horas de negociações, a Assembleia-Geral das Nações Unidas ter votado por unanimidade um cessar-fogo. Nada mais que isso. Indiferentes à decisão tomada em Nova Iorque, no dia seguinte as bombas continuaram a deflagrar, a vitimar civis. Desde o início desta ação militar, na passada semana, mais de 500 pessoas morreram em Ghouta, um enclave junto a Damasco.

Na Síria falta tudo. Alimentos, água potável, medicamentos, fios para suturar os feridos, anestésicos... Os hospitais estão praticamente destruídos, pois nesta guerra infinda as mais elementares regras das convenções internacionais são violadas.

Os habitantes da cidade massacrada, uma entre muitas num país devastado, poderão viver aparentemente cinco horas de paz por dia. Até ao dia em que o corredor humanitário for interrompido pela intolerância de um povo irmão - ludibriado por interesses múltiplos - que se destrói.

A ONU votou por unanimidade, após uma forte resistência da Rússia, aliada do regime de Assad, um cessar-fogo. Mas não chegou a entrar em vigor: essa atitude, das partes envolvidas na guerra, não causa contudo qualquer espanto. A insignificância da Nações Unidas parece evidente, mostra-se incapaz de fazer cumprir a missão para a qual foi criada, a manutenção da paz. É cada vez mais um palco onde as nações, umas mais poderosas, destilam o seu cinismo. "Cada minuto que o Conselho de Segurança esperou pela Rússia, o sofrimento humano aumentou. Nos três dias que demoramos a acordar esta resolução, quantas mães perderam os seus filhos?". Pergunta estranha, sem dúvida, vinda de Nikki Haley, a embaixadora dos Estados Unidos na ONU. A mesma pergunta pode ser endereçada ao seu país. Neste conflito há inocentes, muitos, mas não são os que à distância deslocam as pedras no xadrez.

* EDITORA-EXECUTIVA-ADJUNTA

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