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Opinião

A imaginação ao poder

A imaginação ao poder

Olhamos para eles como os construtores do que aí vem. Deles é o futuro. Não são, portanto, vãs as palavras de D. Manuel Linda, o bispo do Porto, que no domingo benzeu, pela primeira vez, as pastas de milhares de estudantes universitários. "Não deixem para os outros o protagonismo da mudança da sociedade, peço-vos para serem protagonistas. Sejam construtores do futuro, não olhem para o Mundo a partir da varanda, entrem nele".

Olhando em volta, para o momento de festa que a cidade atravessa, pejada de rapazes e raparigas em ambiente de folia, o descrédito parece conquistar espaço. Serão estes jovens os adultos, amanhã, nos lugares-chave da sociedade, capazes de levar a bom porto a árdua tarefa de transformar o Mundo em algo melhor, ou irão comodamente limitar-se a perpetuar o passado? Não consigo ser otimista. A semana é festiva, convida a quebrar todas as regras: e o que vemos afinal? Apenas o replicar de velhos e estafados estereótipos. E perguntamos: não é capaz de fazer melhor esta juventude a quem está destinado o futuro? Uma jovem estudante alertou-me, fez-me espreitar o recinto do Queimódromo, através do que os próprios alunos publicam nas redes sociais. E não foi agradável assistir a tamanha pobreza imaginativa.

Que levará um estudante de Medicina a achar transgressor chamar C.O.N.A. à sua barraca... O acrónimo de Comissão Organizadora das Noitadas Académicas deu nisso, enfim. Numa outra barraca, a imaginação não conseguiu ir mais longe do que pintar dois corpos femininos debruçados de costas, com o seguinte título (que dá nome à quitanda de comes e bebes): "enfia-te na virgem". Serão estes jovens capazes de mudar alguma coisa? Dificilmente. Ver uma jovem mulher, alegremente, a partilhar este tipo de mensagem lança por terra tudo aquilo entretanto conquistado. O direito ao nosso corpo e a obrigação - que a luta de muitas mulheres nos facultou - de não permitir que o transformem num objeto.

Talvez estas raparigas acreditem que a partilha de tais imagens, que transformam o corpo da mulher em algo que se oferece, seja a verdadeira libertação. Não. É apenas degradante. Como é degradante ver estudantes universitárias sem qualquer capacidade de questionar, de dizer "não". Em vez disso, divertem-se com o espetáculo grotesco. E o Maio de 68 foi apenas há meio século: aí, os estudantes "exigiam o impossível", a imaginação ao poder. Hoje não ousam sequer sonhar.

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