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A inabilidade de Rajoy

A inabilidade de Rajoy

Não sabemos se hoje a independência da Catalunha é declarada. Se for, está longe de significar que a região se desvincula de Espanha. Há um longo caminho a percorrer. Seja-o ou não, a Espanha dificilmente volta a ser a mesma, a que se acreditava unificada. Algo se rasgou. E nada está a ser feito para se juntar as partes desavindas. Bem pelo contrário. Em vez do primado da política, assistimos, incrédulos, a declarações incendiárias. Ontem, o porta-voz do Partido Popular além de rejeitar qualquer possibilidade de negociação, com o argumento de que Espanha não é a Jugoslávia, fez uma ameaça: o líder do Governo catalão pode ser preso, tal como foram outros dirigentes no início desta demanda irracional.

O jovem jurista, braço-direito de Rajoy, abriu a caixa de Pandora, espicaçou feridas da Guerra Civil ao comparar Puigdemont, presidente da Genaralitat, ao lendário Companys. Poderão ter o mesmo destino, disse. Nada mais perigoso. Mexer na sangrenta história recente, com propósitos pouco honestos, é demasiado arriscado, por muito que Pablo Casado liberal veja a antiga Jugoslávia distante da realidade espanhola.

Casado espicaça uma ferida ainda por cicatrizar. Lluís Companys é um herói catalão, considerado um mártir do independentismo. Em 1931, declarou a independência da Catalunha. Acabaria fuzilado, nove anos depois, pelo regime franquista. Perante o pelotão de fuzilamento, recorde-se, Companys pediu para se descalçar para assim tocar com os seus pés nus a terra catalã. Pretende o regime de Madrid transformar Puigdemont num mártir?

Madrid, ao invés de esvaziar o sonho dos catalães, todos os dias lhe dá novos alentos. A inabilidade de governo de Rajoy a lidar com o diferendo catalão é algo que não se julgava possível. A recusa em negociar, a detenção dos líderes locais, cercados pela Polícia à porta da Genaralitat, e depois as cargas policiais para evitar o referendo apresentam-se como ações inqualificável num Estado de direito. A nova estratégia é organizar manifestações dos nacionalistas, nem que para isso seja necessário levar autocarros de várias partes de Espanha.

E o medo, sempre o medo como arma e forma de chantagem, com a ameaça da crise financeira. Mas, afinal, quem tem medo de quê? Rajoy tem pavor de dar a palavra aos catalães, ouvi-los e saber o que pretendem para o futuro do território onde vivem. Se não for assim, será de outra maneira - serão os catalães a decidir, mais cedo ou mais tarde.

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