Opinião

A minha rua

É talvez o ato eleitoral onde a democracia é exercida de forma mais vibrante e genuína. No domingo ficou uma vez mais provado, caso restassem dúvidas, que o escrutínio dos eleitores é inclemente. E mostrou uma outra coisa: como o mundo da opinião, que enche as grelhas dos vários canais de TV, pode estar tão desfasado da realidade.

Lisboa e Porto mostraram isso mesmo. Primeiro, dizer que foram manifestamente exagerados os que anunciaram a morte política de Rui Rio. O líder do PSD continuará a ser politicamente incorreto, a dizer o que pensa e não o que esperam dele, sem que a fatura seja incomportável em termos de credibilidade. No Norte, os portuenses passaram uma rasteira a quem vaticinava que o independente Rui Moreira, apoiado pelo CDS e Iniciativa Liberal, teria uma passadeira vermelha à sua espera nos Paços do Concelho, e governaria ser ter de dar contas à oposição. A eleição de um vereador pelo Bloco de Esquerda quebrou o unanimismo das previsões.

E este ato eleitoral deverá dar outro aviso à navegação. Os resultados são locais e não devem ser extrapolados para o todo nacional. Quem ganhou a Câmara de Lisboa foi Carlos Moedas e não Rui Rio, quem perdeu foi Fernando Medina e não António Costa, apesar das consequentes alegrias e tristezas dos líderes nacionais.

Este querer ver nas autárquicas o sentimento nacional só prejudica o debate, a discussão à volta dos verdadeiros problemas do local onde vivemos. Passamos mais tempo a ouvir falar da discussão do Orçamento do Estado para 2022 do que dos problemas da mobilidade, da qualidade de vida - do que queremos verdadeiramente para o sítio onde vivemos.

Quem verdadeiramente se preocupa com as suas terras duvido que gaste tempo a ouvir Costa, Rio, ou os que sonham suceder-lhes, a falar da importância das autárquicas. Aqui o que vale é mesmo a minha rua.

*Editora-executiva-adjunta

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