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Opinião

A raiz do problema

Vai ser feito o quê, afinal, para que o indizível não volte a acontecer? Observando de fora, dá a impressão que o Executivo de António Costa perdeu a oportunidade. As medidas do Conselho de Ministros extraordinário do passado sábado, apesar dos milhões e dos números, parecem exíguas para tão grande tormenta. Há a sensação de que a mudança esperada fica por fazer - ou, pelo menos, aquém do expectável.

As medidas aprovadas, num dos mais longos conselhos de ministros da história, visam resolver o problema dos trágicos incêndios de 17 de junho e de 15 de outubro. Sem dúvida, essa tarefa, só por si, apresenta-se como imensa e urgente. Mas não é esse o ponto, a raiz do problema. O Governo deveria dar um sinal de alteração na política de abandono, com muitas décadas, do interior, do país profundo. E esse sinal passou ao lado.

Aprovar em Conselho de Ministros a limpeza das bordas das estradas e das vias-férreas é quase irrelevante. Para tal tarefa, e com grande eficiência, havia os cantoneiros. Foram extintos, como os guardas florestais e os guarda-rios e tantas outras personagens que cuidavam da paisagem, zelavam pela harmonia do território. Talvez os seus parcos ordenados tivessem um peso significativo no défice. A tragédia aconteceu, e os ministros estabeleceram a limpeza das estradas como uma prioridade, em 2018, entre muitas outras medidas.

Da magna reunião ministerial aguardava-se por uma inversão nas políticas de prevenção e combate aos fogos florestais. Contudo, bem vistas as coisas, fica a sensação de que a receita é sempre a mesma. Desta vez com maior impacto, naturalmente. A tragédia, também ela, teve uma dimensão inusitada. Boa soma das medidas destina-se a recuperação de estruturas que existiram e, entretanto, foram extintas. Aparentemente, poucos são os que vivem da floresta e os votos dessa comunidade terão uma expressão reduzida; os outros, os que saem à rua a clamar "incêndios, nunca mais" sabem da existência da mata quando a veem a arder na televisão.

O antigo ministro Silva Peneda defendia, no rescaldo do fogo de 15 de outubro, a transferência para o interior de alguns serviços da administração central. Uma proposta ambiciosa que careceria de alguma coragem para ser lançada. Essa "ousadia" falta ao pacote apresentado no passado sábado. Enquanto não houver coragem de deslitoralizar um pouco o país, mudar de facto algo no ordenamento do território, Portugal continuará ardendo.

O pomar de António Campos devia servir de farol aos nossos governantes. Não foi milagre as 40 mil macieiras do antigo secretário de Estado da Agricultura terem resistido ao fogo. Elas são valor. E quando existe valor, há gente a protegê-lo.

* EDITORA-EXECUTIVA-ADJUNTA

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