Opinião

A viajar com Centeno

Do outro lado da fronteira viaja-se, a partir da primavera, em alta velocidade low cost. Deste lado, olhamos nostálgicos para o comboio a vapor na Linha do Vouga, sinal de tempos de prosperidade, e reconhecemos que as carruagens a circular nas nossas (poucas) vias férreas, a chegar a 2020, pouco mais modernas são do que esse comboio histórico.

Recorro ao exemplo da alta velocidade espanhola, em dia de apresentação de Orçamento do Estado, porque essa notícia é por de mais reveladora daquilo que nos separa dos nossos vizinhos e de como as suas prioridades são diferentes das nossas.

Hoje, vamos ter um ministro das Finanças a apresentar um documento que terá pela primeira vez, desde que vivemos em democracia, superavit. Será isso bom? Dizem que sim. É bom para os mercados, é bom para os investidores internacionais...

Enquanto isso, vemos os espanhóis viajando em alta velocidade entre Madrid e Barcelona, para tirar veículos individuais e autocarros das estradas - é esse o objetivo assumido da medida. Nós por cá viajamos em composições de metro a abarrotar e em comboios a perder peças na linha, tal o estado de decrepitude em que se encontram. E aqueles que estão encostados, anunciou o ministro do Equipamento, Pedro Nuno Santos, serão reconvertidos para voltar ao serviço.

Nem a situação preocupante do Serviço Nacional de Saúde parece ser suficiente para Mário Centeno esquecer o défice zero e reforçar devidamente essa área, de forma a que a normalidade regresse aos hospitais. E o caos deixe de ser argumento útil aos que teimam em descredibilizar o SNS e assim escancarar as portas aos privados. Com Centeno, o discurso mantém-se. "As contas estão melhor", os portugueses continuam mal. Mudou o Governo, o objetivo permanece. Boas contas, para apresentar a Bruxelas. O resto, os portugueses aguentam.

*Editora-executiva-adjunta

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