Opinião

Anacrónica poupança

Crescemos a ouvir dizer, em várias situações, ser importante poupar. Antes de nós, os nossos pais cultivaram essa prática de não desbaratar o produto de dias de trabalho, quantas vezes duro, mal pago.

O objetivo era conseguir um pé-de-meia, para o que fosse preciso. Talvez por termos crescido num país pobre, a possibilidade de guardar algo, ainda que pouco, seria para muitos projeto de vida. Pouco, para quem nunca viveu com muito. O Mundo mudou, transformou-se. O ter e o mostrar torna-se na nova forma de vida. Poupar é verbo anacrónico, gesto caído em desuso, na sociedade do consumo desenfreado como marca de vida. Ter economias no banco, enfim, apenas dá jeito para facilitar pagamentos e evitar usar dinheiro vivo.

O que em tempos, não muito recuados - não terá decorrido uma década -, era visto como um investimento, o principal para a maioria das famílias, converteu-se numa mera cedência de capital às entidades que praticam a usura. A reboque da descida das taxas de juro, praticadas pelo Banco Central Europeu, as remunerações dos depósitos desceram ao nível zero. Pela mesma lógica, esperava-se que a galopante subida das taxas de juro, que se reflete nos créditos bancários, fizesse o caminho inverso: para quem empresta dinheiro aos bancos, com o consequente crescimento das remunerações dos depósitos, de acordo naturalmente com os prazos estabelecidos, resgatar o dinheiro.

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Foi preciso o governador do Banco de Portugal vir dizer, não uma nem duas, mas três vezes, que "a subida das taxas de juro deve fazer-se sentir nos depósitos". E não se iludam os mais crentes, pois não é pelos depositantes que Mário Centeno faz esse apelo. Mas, pela saúde das próprias instituições bancárias, pois até o ser mais néscio percebe que bancos sem dinheiro dos depositantes não existem.

Dezembro começou com uma ligeira subida das taxas de juro para os depósitos, de 0,05 por cento para 0,24, o maior aumento desde 2012. Mesmo assim, muito longe do praticado noutros países da zona euro, com os Países Baixos no topo dos generosos, com um juro próximo dos dois por cento.

*Editora-executiva-adjunta

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