Opinião

Construir contra a fúria do mar

Construir contra a fúria do mar

No local onde sempre fiz praia, numa freguesia do concelho de Vila do Conde, havia uma pequena via entre dois cordões dunares. Esteve lá décadas. Em certos invernos, as ondas galgavam o muro e a água inundava a rua, mas sem efeitos de maior. Foi assim até ao último temporal. A estrada acabou engolida pela força das ondas e no seu lugar irrompeu uma cratera.

O que mais me tocou, no entanto, da última vez que lá passei, foi ver a uns escassos 50 metros, na perpendicular à agora estrada destruída, várias moradias de luxo a nascer: como se o avanço do mar fosse uma longínqua ameaça que jamais iremos testemunhar. E o que me deixa perplexa é constatar o fosso cavado entre o discurso político e a realidade.

As alterações climáticas entraram na agenda política global. Tarde demais, podemos dizer. Hoje em dia, porém, não há qualquer possibilidade de negar uma realidade à vista de todos. E os negacionistas (muitos ainda e de grande importância, a nível global, como o presidentes dos Estados Unidos) são vistos por uma larga franja da população como mentirosos. Ou, dito de outra forma, muitos veem nesse negacionismo apenas uma forma de esconder interesses menos claros.

O ambiente tomou conta do discurso político. E ainda bem. Mas isso não chega. O que tarda a acontecer é a prática política. É no mínimo estranho continuar os licenciamentos para construção na costa, ignorando os sinais evidentes do que está para acontecer. Foram feitos planos de ordenamento da orla costeira, alguns entretanto revistos, e a prática mantém-se quase inalterável. Ao mesmo tempo que se decretam demolições, autorizam-se novas construções. Quando um novo plano decidir a sua demolição e a deslocalização dos moradores, o erário público aí estará para o que for preciso.

*Editora-executiva-adjunta

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