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Duvido, logo existo

Enquanto a Europa vive em estado de guerra, tendo a sua capital política praticamente paralisada pelo medo, Portugal parece ser de outro mundo. Irreal, quase. Cinquenta e um dias depois das eleições, o país continua sem governo, com um presidente da República que havia estudado "todos os cenários", enredado numa teia de contactos e de incertezas. Cavaco, lembram-se, nunca se enganava e "raramente tinha" dúvidas. Mas agora tarda, tarda, tarda a tomar uma decisão para devolver a normalidade política.

Depois de, na passada sexta-feira, ter dado por terminada uma ronda de auscultações de diversas personalidades, algumas de dúbio interesse, 24 no total, e de ouvir de novo os partidos com assento parlamentar, esperava-se que o presidente da República convidasse ontem António Costa a formar Governo. Pois é esse, na atual conjuntura, o único caminho. O líder socialista foi, de facto, chamado a Belém, e saiu, após breve conversa, com trabalho de casa. O presidente tem dúvidas. Não lhe basta o compromisso assumido pelos partidos, base de apoio de um Governo socialista no Parlamento. Não lhe basta sequer a palavra dada. Cavaco Silva, desgastado, em penoso fim de mandato, quer tudo "blindado".

Até podemos considerar legítimas as cautelas manifestadas por Belém. Mais difícil de perceber, todavia, se torna a dificuldade de Cavaco Silva de abandonar um palco numa peça em que toda a plateia já adivinhou o fim, por isso se inquieta nas cadeiras, impaciente por ver cair o pano. Se Cavaco tem dúvidas, tê-las-ia, com certeza, também na sexta-feira - quando ouviu António Costa e os líderes dos restantes partidos da Esquerda e abdicou de qualquer pedido de esclarecimento.

Cavaco Silva, depois de ter estudado todos os cenários, jamais pensaria despedir-se assim de Belém. Deixa Passos Coelho e Paulo Portas morrer na praia (a PàF foi a força mais votada, mas perdeu o maioria no Parlamento) e dará posse a um Governo do socialista António Costa, apoiado pela "extrema-esquerda": BE, PCP e Os Verdes.

Nem sempre a marcha dos acontecimentos corresponde aos desejos de quem os julga manipular. Enfim, é o regular funcionamento das regras democráticas em prática. Aníbal Cavaco Silva ficará na história como o presidente que viu uma tradição de mais de 40 anos cair por terra. A tradição que deixava o Parlamento em segundo plano, dando primazia aos partidos. Fez tudo, é certo, para evitar tal desfecho - ninguém o poderá acusar de não ter tentado.

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