Opinião

Fazer política sem esquecer a história

Fazer política sem esquecer a história

Na noite de domingo, perante a expressiva vitória do Syriza, a unanimidade reinava, com raras exceções, entre os comentadores do costume. Alexis Tsipras e os seus camaradas radicais, obviamente, iriam optar pela moderação. A primeira reunião do novo Governo grego, dois dias após o ato eleitoral, mostrou o contrário.

"O povo grego não é um povo complacente/ O fogo disparado sobre ele é-lhe vitória/ Os mais pequenos entre eles são loucos/ Por liberdade razão e sua força", escrevia Paul Éluard, num poema dedicado ao general Markos Vafiades, um dos resistentes à ocupação nazi. A história, tantas vezes esquecida, nesta crise que atravessa a velha Europa.

Não serão loucos os homens do Syriza. Na dura negociação com as instituições europeias, agora encetada, têm com certeza trunfos a lançar. E sabem: se eles têm muito a perder, a Europa também perderá. Os dados, enfim, estão lançados. A Grécia é europeia, não quer sair da Europa. Isso parece claro. Mas a saída pode não ser um drama tão grande como nos querem fazer crer.

Atenas, e foi essa a resposta dada pelo povo grego nas eleições de domingo, não está refém de Bruxelas. Tem para onde se virar. A posição grega, ontem expressa, de poder vetar as sanções à Rússia, por causa da crise da Ucrânia, é o sinal claro de que há alternativa.

Os gregos não esquecem a história. E os primeiros atos públicos de Alexis Tsipras, logo após ter assinado o compromisso enquanto primeiro-ministro, no palácio presidencial, não deixam dúvidas: um encontro com o embaixador russo acreditado em Atenas e uma homenagem, com grande força simbólica, aos gregos mortos durante a ocupação nazi. Se a Europa falhar, a Rússia está ali à porta.