Opinião

Governo em estado de Citius

Governo em estado de Citius

Assistimos a acontecimentos inéditos na política portuguesa. A ministra da Justiça pede desculpas publicamente e assume total responsabilidade política pelos problemas provocados pelo bloqueio do programa informático do seu Ministério. É uma atitude, à primeira vista, com alguma elevação nos dias que correm. Noutros tempos, ter-se-ia demitido.Paula Teixeira da Cruz, vestida de negro, que lhe dá um ar pungente, a combinar com o ato de contrição, não está sozinha. No fim da conferência de Imprensa, percebemos: afinal, a ministra não dá a cara pelos erros que cometeu. Pede desculpas, mas, no fundo, a responsabilidade é de outrem. Pede desculpas, para dizer que, afinal, a culpa não é dela. É do outro. Do que está a seu lado, como um menino à espera do castigo, a ser exibido à nação. A ministra diz-se enganada. Todos os portugueses, minimamente atentos, sabiam a 31 de agosto que a abertura do ano judicial não correria bem, fosse pelo programa informático, fosse pela atabalhoada reforma ensaiada. Paula Teixeira da Cruz não, não sabia. E apresentou-nos o culpado por tão vil engano. E Rui Pereira, presidente do Instituto de Gestão Financeira e Equipamentos de Justiça, assumiu ter sido sua a culpa. Não me lembro de assistir a um ato tão pouco dignificante de um titular de um cargo público.

Paula Teixeira da Cruz quis assumir um ato com alguma nobreza. Não o conseguiu. Levar o homem que lhe deu a informação técnica que lhe permitiu tomar a decisão política e entregá-lo daquela forma tão despudorada não é digno. Rui Pereira assumiu ter dado a garantia à ministra de que era possível fazer a integração de processos na data combinada. Fê-lo com uma dignidade sofrida. A mim indignou-me o cinismo da ministra a escudar-se num técnico para claramente tentar sair da borrasca. Um ministro não pode fazer isto, na praça pública, a um técnico seu subordinado. Se havia razões para pedir a demissão de Paula Teixeira da Cruz perante o caos instalado nos tribunais portugueses, fruto da sua teimosia, este seu último gesto reforça esse pedido. O pedido de desculpas foi expresso pela ministra. Entregou o culpado. Todavia, Paula Teixeira da Cruz não apresentou qualquer solução para o problema. Ficamos sem saber quando, de facto, o ano judicial entra em funcionamento. Uma vez mais, o seu subordinado veio anunciar, aos microfones da TSF, que o programa Citius vai ter de ser substituído. Daqui a três anos. Permitam-me o trocadilho. Este Governo está em estado de Citius: o ministro da Educação, o rigoroso Nuno Crato, veio também pedir desculpa pelas trapalhadas na (des)colocação de professores.

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