Opinião

A diretora do "Janeiro"

A diretora do "Janeiro"

Quando cheguei ao jornal "O Primeiro de Janeiro", no final dos anos oitenta, Agustina Bessa-Luís havia deixado o cargo de diretora pouco tempo antes. A sua presença, no entanto, estava ainda bem viva. Alguns dos jornalistas mais velhos não tinham apagado do espanto de ver o centenário diário dirigido por uma mulher. A primeira mulher diretora de um matutino português.

O "Janeiro" sempre fora um periódico diferente dos outros, talvez por isso, ao longo da história, as suas páginas iluminaram-se com a prosa de intelectuais de primeira linha. Antero de Quental, João Chagas, José Régio, Alberto de Serpa (coordenador do suplemento literário muitos anos) ou Jaime Brasil. A primeira grande polémica da jovem Agustina, refira-se, teve como opositor Jaime Brasil, jornalista e escritor anarquista que, antes de Serpa, dirigia o suplemento literário do jornal que anos mais tarde viria a comandar.

Também como diretora do jornal, a ficcionista teve um papel singular. Diziam os chefes de Redação que Agustina em momento algum interferiu na orientação do "Janeiro", na feitura da primeira página, etc. Todavia, os seus editoriais, fugindo à norma dos editorialistas comuns, deixaram marca: pelos assuntos (imprevistos) que tratava, pela qualidade da escrita, pela ironia verdadeiramente demolidora. A diretora escrevia à mão, nos linguados pardacentos, numa caligrafia miúda e densa. Escrevia os editoriais, no amplo gabinete voltado para a Rua de Santa Catarina, e algumas vezes crítica literária para o suplemento literário, ainda dirigido por Alberto de Serpa, que conheci, às voltas com os papéis no pequeno gabinete envidraçado. Críticas arrasadoras, impiedosas, designadamente quando as suas leituras recaíam sobre obras escritas por mulheres.

Agustina, enfim, fiel a si própria, fosse no papel de diretora do jornal ou do Teatro Nacional. Imprevisível e, acima de tudo, livre.

* EDITORA-EXECUTIVA-ADJUNTA