Opinião

A Igreja de Francisco

São cinco anos de plena humanidade. Mario Bergolio, o bispo argentino, ficará na história, entre outros e mais significativos motivos, por ter sido o primeiro Papa da América Latina. Nos últimos cinco anos, tem levado a Igreja às pessoas, de braços abertos, sem ressentimentos, aos que mais precisam da palavra, dum gesto, para iluminar as suas vidas.

A Igreja do Papa Francisco regressa ao princípio. Posiciona-se ao lado dos deserdados, dos caídos na solidão extrema: os cidadãos em quem quase ninguém repara, aqueles a quem a sociedade dá uma esmola e segue o seu caminho de consciência tranquila, sensação de dever cumprido. A Igreja herdada por Francisco era também o espelho dessa sociedade desigual, estratificada. E ainda é. A velocidade a que o velho jesuíta (quem diria?) de Buenos Aires traz o mundo real para dentro do Vaticano é demasiado célere. Ele é a voz, ele desassossega as consciências em relação aos verdadeiros problemas que abalam a sociedade dos nossos dias. Perseguindo o bem comum, pela mão do Papa o Mundo teve acesso a um dos mais importantes documentos sobre as alterações climáticas. Em 2015, o Vaticano publicava a encíclica Laudato Si, verdadeiro grito de alerta sobre o clima, a ameaça para o Planeta e, uma vez mais, para a fragilidade dos mais pobres.

Pela voz do Papa Francisco se ouve falar do horror do dia a dia na Síria e não pelo sussurro das Nações Unidas. Ele nos sacode sempre que mais um ser humano perde a vida a tentar atravessar o Mediterrâneo em busca de vida digna. Francisco não se cansa de nos dizer: "o futuro do mundo global é viver em conjunto". Essa sociedade inclusiva "requer o compromisso de construir pontes, manter o diálogo aberto, continuar a encontrar-se". Disse-o, no domingo, em Roma, na comunidade Santo Egídio, na capital de um país onde, a cada dia que passa, prospera a intolerância, o ódio ao outro.

O papado de Francisco cumpre o papel primordial de acolhimento do mais fraco, de denúncia da desigualdade. Não basta a caridade, pretende mudar mentalidades. Um homem só, porém, dificilmente consegue alterar a velha Igreja, por muito que a sua imagem nos chegue refrescada. Há uma questão a carecer de resposta: o que de facto mudou na Igreja com o Papa da América Latina? Talvez pouco. Mas Francisco retoma o pensamento de cristãos progressistas, de meados do século passado: "uma civilização não tem que se preocupar em ser cristã, mas em ser livre e justa", defendiam. Parece ser o caminho - e esta posição, num Papa, faz toda a diferença.

* EDITORA-EXECUTIVA-ADJUNTA