A ABRIR

A utopia de Costa

Só uma utopia imensa ultrapassa a tragédia "irreal que se tornou real", segundo as palavras de Nádia Piazza, a mulher que perdeu um filho no incêndio de junho de 2017.

António Costa sabe disso e ontem não se limitou a uma visita protocolar e à presença na cerimónia religiosas em homenagem às vítimas. Tentou levar esperança à gente de Pedrógão. Ele sabe: o verão pode espevitar novas calamidades. Os meios aéreos, sabe ele e sabemos nós, não resolvem só por si as longas frentes de fogo. Sabe ainda uma outra coisa: no país desigual, os que ficaram nas terras sem futuro serão sempre mais vulneráveis a tudo - até às chamas.

O verão que se aproxima pode trazer dissabores a António Costa, em plena campanha eleitoral para as legislativas. Não seria essa, naturalmente, a preocupação do primeiro-ministro quando lançou a utopia. Uma utopia que se devia transformar num desígnio nacional: "Vencer o desafio extraordinário de revitalizar estes territórios de baixa densidade". Ou seja, voltar a dar vida ao interior português, tornar o país mais justo. De cidadãos com os mesmos direitos, em Lisboa ou em Torre de Dona Chama.

Um desígnio com sabor a utopia. Todos sabemos, há caminhos sem recuo. Que forças conseguirão recuperar o que foi destruído nas últimas décadas? Poderá a reforma administrativa, que António Costa gostaria de implementar se voltar ao Governo, transformar Portugal num território coeso? A resposta deveria ser positiva.

Não acredito, porém, que a maioria dos portugueses, se chamada a decidir em referendo sobre a regionalização, vote sim. E infelizmente há boas razões para hesitar em dar mais competências a políticos que usam o poder autárquico em seu próprio benefício. São uma minoria, é verdade. Mas a mancha é daquelas muitos difíceis de limpar.