Opinião

Estudar custa

Entrou com uma média de 18,9 valores e foi o único candidato ao curso de Engenharia Civil da Universidade da Madeira. Estranho, no mínimo. Como tudo, há uma explicação para o caso. Fazer uma licenciatura na ilha, a aprender a construir pontes, não era o sonho do jovem. Juan Emanuel Batista tentava uma segunda oportunidade. No ano letivo passado, frequentou o mesmo curso, mas no Instituto Superior Técnico, uma das mais prestigiadas instituições de Ensino Superior. Luso-venezuelano, empurrado para a Madeira pela crise económica e política que se vive na Venezuela, Juan Emanuel não aguentou o custo de vida de Lisboa. Como tantos outros, falta-lhe capacidade financeira para pagar a renda de um quarto na capital.

Juan Emanuel é o rosto de muitos jovens portugueses. Alunos de excelência, filhos da classe média, esbarram numa realidade que não os merece. Portugal, o país em que sucessivos governos apontam a formação universitária como o caminho do futuro, disponibiliza 15 mil camas para os 150 mil estudantes que deixam as suas casas para frequentar um curso superior. Manuel Heitor, o discreto ministro da Ciência e Ensino Superior, anuncia mais 1500 camas, mas avisa: nunca estarão disponíveis antes de 2019.

O anúncio não merece ser levado a sério. O Governo, em maio passado, apresentava o Plano Nacional para o Alojamento no Ensino Superior, uma proposta de designação pomposa que apenas ilude o mais incauto: 1500 camas para o país inteiro. E, assim, continuamos à mercê do mercado, subterrâneo a maior parte. Em vias de extinção também ele. Onde viviam estudantes, que animavam o centro das cidades, pernoitam agora estrangeiros, por duas noites, uma semana. Entram e saem ao sabor dos voos low-cost. E os poucos fogos vagos são postos no mercado a preços exorbitantes. Ou seja, rendas de 700 euros para T1 e T0. Valores assustadores para quem vê o seu filho entrar numa universidade de Lisboa ou do Porto. Ou são ricos ou arranjam uma bolsa. Ou desistem.

*Editora-executiva-adjunta