A abrir

Uma estranha paixão

Foi preciso um grupo de bárbaros agredir os jogadores do Sporting, no interior da Academia de Alcochete, para centrar a atenção na pobreza do mundo da bola em Portugal. Não bastava o discurso de ódio que os representantes dos clubes destilam no espaço público; não chegava a perceção de que o futebol, enfim, não é bem o que se passa dentro das quatro linhas. Não chegava vislumbrar o perigo que muitos jogos constituem para quem ainda acredita poder assistir, em família, a uma festa do desporto.

Parecia imagem pouco forte ver os jogos de futebol serem preparados como uma batalha, com muitos efetivos policiais plantados, de escudo, viseira e bastão, como se os estádios não fossem lugar onde se pratica desporto. Mas um território de violência, onde os espectadores são revistados à entrada, porque alguns podem levar armas, explosivos, no propósito de atacar o outro.

Ano após ano, as autoridades vão tolerando, não raro branqueando, as indecências das claques. O rasto de destruição atrás de si, em viagens escoltadas por batalhões policiais, os insultos, a falta de respeito pelo adversário. Como se o futebol fosse um mundo à parte, e os adeptos e dirigentes uma casta intocável, diferente de nós, tocada por uma irracionalidade que dizem ser paixão - "paixão clubística".

Não há, pois, motivo de espanto perante a vergonha que o país sentiu ao conhecer os relatos do assalto à Academia de Alcochete, e o presidente da República deu rosto. "Tive o sentimento de alguém que se sente vexado pela imagem projetada por Portugal no Mundo. Vexado porque Portugal é uma potência, nomeadamente no futebol profissional, e vexado pela gravidade do que aconteceu". Sem dúvida, uma vergonha, independentemente do impacto na imagem internacional, a poucos dias do início do Mundial da Rússia. Vergonha, antes de tudo, pelo que se está a passar cá dentro.

Como de costume, as medidas chegaram de forma reativa e devagar. Após a patética conferência de imprensa conjunta dos secretários de Estado do Desporto e da Administração Interna, que nada acrescentou, foram as palavras do presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, de repúdio pela banalização do crime, a imprimir urgência de atuar. E a resposta aí está. O primeiro-ministro, António Costa, anuncia a criação da Autoridade Nacional para a Violência no Desporto. Veremos se a tempo de apagar as chamas ateadas no mundo do futebol, alimentadas por um culto quase fascista a alguns dos presidentes dos clubes.

* EDITORA-EXECUTIVA-ADJUNTA